Cláudia Trevisan / Estadão
Cláudia Trevisan / Estadão

Capelão de igreja evangélica nos EUA prega lado bom das armas

Em 2000, 67% dos americanos achavam controle mais importante que direito a arma; hoje, são 51%

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / LAS VEGAS, EUA, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 18h33

LAS VEGAS - Capelão da igreja do evangelista Billy Graham, Jack Munday oferecia nessa semana consolo espiritual aos que visitavam o memorial improvisado em homenagem aos 58 mortos em Las Vegas, no maior ataque a tiros da história dos EUA. Dono de armas, ele disse não ver relação entre a sua proliferação e o massacre.

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“Há tantas coisas boas feitas com armas. Os nossos policiais as usam para nos proteger e nós as usamos para nos defender”, afirmou Munday. Evangélicos brancos como ele formam o grupo religioso que mais entusiasmo demonstra pela Segunda Emenda da Constituição, que trata do direito ao porte de armas. Também formam uma das principais bases de sustentação do governo Donald Trump.

Na opinião de Munday, a origem do ataque está no “coração” do atirador, Stephen Paddock, que se suicidou depois de abrir fogo contra uma multidão de 22 mil pessoas que assistiam a um festival de música country. Em pouco mais de nove minutos, ele matou 58 pessoas e feriu outras 489. A polícia encontrou 23 armas em sua suíte no 32.º andar do hotel Mandalay Bay, de onde atirou. Havia outras 24 em sua casa, a 130 km de Las Vegas, que fica no Estado de Nevada. 

“Quando alguém tem um coração ruim e quer fazer mal a outras pessoas, ele usa machados, facas, armas e até aviões, mas nós ainda temos aviões”, afirmou Munday, que disse ter aprendido a caçar com seu pai quando era criança, algo comum no interior dos EUA.

Matt Hackens, também evangélico, acredita que o setor de armas já é regulado o bastante e se opõe a medidas restritivas. “O controle só vai impedir que cidadãos que obedecem à lei tenham acesso a armas. Os criminosos sempre acharão um jeito de consegui-las.”

Pequeno empresário, Hackens disse que cresceu em uma família que não possuía armas nem mesmo para caçar. Segundo ele, sua decisão de adquirir uma veio com o ataque terrorista de 11 de Setembro. “Uma sociedade desarmada é uma sociedade indefesa, na qual os cidadãos não se podem defender”, afirmou Hackens, que vive no país com o maior poderio militar do mundo.

Série histórica do Pew Research mostra que os americanos deixaram de dar ênfase ao controle de armas para valorizar o direito de ter armamento. No ano 2000, 67% dos entrevistados pelo instituto apoiavam o controle, enquanto 29% se declaravam favoráveis ao direito de ter armas. 

Em 2010, o público se dividiu quase ao meio entre as duas posições, situação que permanece estável até hoje, com algumas oscilações. Na pesquisa mais recente, de abril, 51% defendiam limites, enquanto 47% adotavam a outra posição. Essa é uma das questões que mais separa o eleitorado americano do ponto de vista ideológico. Entre os republicanos, 79% se declaram a favor do direito às armas e só 18% defendem o controle. Os números se invertem no caso dos democratas, com 20% e 78%, respectivamente.

Apesar do equilíbrio, a maioria esmagadora dos americanos, 90%, é favorável à checagem de antecedentes em todas as compras de armas. Na maioria dos Estados, essa exigência se aplica apenas às transações feitas em lojas estabelecidas. Todas as que ocorrem em shows de armas ou entre particulares estão isentas de qualquer controle do perfil do comprador.

Em plebiscito realizado no ano passado, os eleitores de Nevada aprovaram por pequena margem a obrigatoriedade de checagem de antecedentes em todas as transações de armas, mas a medida não foi implementada até hoje. O procurador-geral de Justiça do Estado, um republicano, sustenta que a exigência é inexequível.

A evangélica Edwina Koepsell não vê conflito entre sua defesa enfática da Segunda Emenda e a checagem de antecedentes. “Não acredito que todo mundo deve ter armas. Deve haver restrições para quem tem histórico de violência ou doenças mentais.”

 

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