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Cardeais pedem que a Igreja assuma sua identidade

Os 12 cardeais de língua portuguesa -- oito do Brasil, dois de Portugal, um de Angola e um de Moçambique -- advertiram em relatório apresentado no consistório encerrado hoje no Vaticano, que a Igreja só conseguirá ter a adesão dos fiéis se anunciar com clareza e sem medo que Jesus Cristo é o único e exclusivo redentor. Isso vale principalmente para a América Latina, onde os católicos perdem terreno para as seitas evangélicas. "Não tivemos receio de exagerar na insistência de que a Igreja deve assumir sua identidade, para lançar-se mar adentro, em sua missão evangelizadora, como nos aconselha o papa", disse à Agência Estado o cardeal d. Lucas Moreira Neves, ex-arcebispo primaz de Salvador (BA) e ex-prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, cargo ao qual renunciou por motivo de saúde. A posição do grupo de língua portuguesa foi levada a plenário pelo arcebispo de São Paulo, d. Cláudio Hummes. "Foi o melhor relatório de todos", elogiou o arcebispo de Aparecida (SP), d. Aloísio Lorscheider, comentando com outros cardeais a síntese feita pelo relator. Dividido em 11 ítens, o documento teve, segundo d. Lucas, "tônica essencialmente eclesiológica e conciliar, dentro do espírito do decreto Ad gentes, um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II". São os seguintes os pontos principais do relatório do cardeal Hummes: 1 - Relançamento da missão evangelizadora. Os representantes do Brasil, Portugal, Angola e Moçambique acham que a Igreja perdeu o seu élan missionário, sob vários pretextos. O entusiasmo e o empenho pela pregação do Evangelho precisa ser retomado no espírito do decreto conciliar Ad gentes ( Às nações) e da encíclica Redemptoris missio (A missão do Redentor). O kerigma (anúncio, em grego) tem de ser forte e corajoso. 2 - Somente uma boa catequese que pregue Jesus Cristo com clareza, proclamando que ele é o único e exclusivo redentor, será capaz de conseguir a adesão de maior número de pessoas, especialmente na América Latina, continente que reúne metade dos católicos do mundo, mas enfrenta forte concorrência das seitas evangélicas. 3 - A Igreja deve explicar melhor sua moral e sua ética, pois não basta pregar. Dentro de um espírito de diálogo, a evangelização não pode ser nem imperativa nem autoritária. 4 - A inculturação da fé (que consiste em pregar o Evangelho respeitando-se a cultura e a tradição de cada povo) é o grande desafio da evangelização, principalmente na Ásia e na África. 5 - Num mundo dominado pela globalização, que concretamente torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, a Igreja deve investir em serviços que valorizem a caridade e a solidariedade para com os pobres. 6 - O papel dos leigos é fundamental para a evangelização no Terceiro Milênio. Os meios de comunicação, muitas vezes tidos como inimigos, devem ser considerados instrumentos de evangelização. 7 - Na relação da Igreja universal (total) com as igrejas particulares (dioceses), deve-se ressaltar os laços pelos quais estão ligadas umas às outras e a Roma. Igreja universal não significa soma, mas participação. O relatório dá ênfase à fidelidade ao papa, como sucessor de Pedro. 8 - A evangelização das grandes cidades merece atenção especial, com mais participação dos leigos e a adoção de novos métodos. 9 - A Igreja, muitas vezes vista como agremiação política e social, deve ser uma escola de santidade, que é parte de sua identidade. 10 - A ecologia e a defesa do meio ambiente devem ser analisadas dentro da teologia da criação, na qual a primazia cabe ao homem. 11 - Reconhecendo que, apesar de falhas, muita coisa tem sido feita, os cardeais de língua portuguesa agradecem a João Paulo II pelas mensagens de encorajamento que vem transmitindo à Igreja neste começo do Novo Milênio. "Como se vê pelas questões levantadas no consistório, deixamos bem claro que pretendemos ir para o meio do mar, isto é avançar, o mais possível, no anúncio do Evangelho", observou d. Lucas, ao resumir o trabalho dos 155 cardeais que participaram da reunião em Roma "João Paulo II acompanhou toda a discussão, com atenção e lucidez", disse o cardeal. Exceção foi apenas a quarta-feira , quando ele deixou o consistório para dar audiências. O cardeal Aloísio Lorscheider, segundo d. Lucas, desmentiu que tivesse afirmado, em entrevista ao jornal católico francês La Croix, semana passada, que o papa é prisioneiro da burocracia da Cúria Romana. "Dom Aloísio disse a d. Serafim (Fernandes de Araújo, arcebispo de Belo Horizonte) e a mais dois cardeais que jamais fez aquelas declarações", informou d. Lucas. Procurado ontem pela RAI (televisão estatal italiana), o cardeal de Aparecida só concordou em dar entrevista porque tinha a certeza de que seria gravada.

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Agencia Estado ,

24 Maio 2001 | 21h21

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