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Cartas políticas marcadas

Sensação de ‘jogo viciado’ leva eleitores americanos a apostar em fenômenos extremos

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Nicholas Kristof,
New York Times

19 Fevereiro 2016 | 08h21

É um tanto bizarro na atual temporada política americana observar que candidatos ricos em ambos os partidos denunciam o sistema político por representar principalmente os interesses de gente rica. Talvez bizarro e, às vezes, um pouco hipócrita, mas também bastante correto.

O sistema político dos EUA está sendo realmente manipulado. O jogo não é favorável às pessoas comuns. Essa é a frustração que alimentou, de maneiras diferentes, as campanhas contra o governo de Donald Trump, Ted Cruz e Bernie Sanders em particular – e está levando outros candidatos, como Hillary Clinton, a empunhar suas armas também.

Basta considerar a injustiça estrutural que é possível observar nos EUA: é mais provável um menino rico, mas pouco inteligente, obter um diploma universitário do que um menino pobre e inteligente, segundo Robert Putnam, da Universidade Harvard.

Outro exemplo: os 20 americanos mais ricos “valem” mais do que a metade da população americana mais pobre, segundo um recente estudo do Institute for Policy Studies. Os 100 mais ricos da revista Forbes “valem” o mesmo que os 42 milhões de afro-americanos, diz o estudo.

“Desconfiamos, com razão, que o sistema está viciado. Nosso governo tornou-se uma máquina operada por fichas e nós fomos postos de lado”, escrevem Wendell Potter e Nick Penniman em seu livro revelador sobre o dinheiro na política Nation on the Take. Eles pedem uma “profunda correção de curso”, como as que os EUA costumavam empreender periodicamente.

Pressão. É saudável que os eleitores americanos exijam mudanças. Mas quando uma sociedade enfrenta o sofrimento econômico, às vezes, ela pede reformas, outras vezes, bodes expiatórios – como os refugiados este ano. Por isso, a questão histórica para 2016 é saber que rumo tomará a indignação popular dos eleitores americanos. Donald Trump ou Ted Cruz, como presidentes, construiriam muros e autorizariam a tortura de suspeitos de terrorismo. Hillary Clinton ou Bernie Sanders elevariam o salário mínimo e investiria nas crianças em situação de risco.

Tenho a impressão de que seria mais racional buscar soluções, não bodes expiatórios, mas racionalidade é em geral um artigo escasso na política. Depois de um discurso costumeiramente brilhante de Adlai Stevenson, indicado à presidência pelo Partido Democrata em 1952 e 1956, um partidário teria gritado: “Todos os americanos que pensam, votarão em você.” E, diz a lenda, Stevenson gritou em resposta: “Não basta. Eu preciso da maioria!”

Quanto a tentar uma solução, um bom começo seria reduzir a influência do dinheiro na política. A indústria farmacêutica, por exemplo, usou todo o seu peso no lobby – no ano passado, gastou US$ 272 mil em doações de campanha para cada membro do Congresso e conta com um número de lobistas superior ao dos congressistas – para impedir que o governo conseguisse reduzir os preços dos remédios. O bloqueio equivale a US$ 50 bilhões ao ano de presente para os laboratórios.

O aumento da desigualdade tem raízes complexas e em alguns casos ela não pode ser facilmente corrigida. Por outro lado, muitos americanos são ricos, em parte, porque trabalharam muito, pouparam sempre e investiram de maneira extremamente inteligente. É algo que deve ser comemorado, mas tudo isso redunda numa desvantagem que também afeta os resultados e os valores sociais.

Paul Piff, psicólogo social, realizou algumas experiências usando o jogo Banco Imobiliário viciado, em que um jogador tinha mais dinheiro para começar e estava praticamente predestinado a ganhar. O jogador mais rico acabou dominando os outros e ficou com o prêmio maior. Neste ano eleitoral, muitos americanos acham que estão vivendo esse jogo viciado.

Os eleitores americanos têm razão de se sentir revoltados. No entanto, o desafio não está apenas em diagnosticar o problema, mas também em prescrever as medidas corretas e implementá-las.

A insurreição poderá ganhar força, mas também ser canalizada, não por meio da punição de bodes expiatórios, mas por meio de reformas que façam com que o sistema funcione melhor para os americanos comuns. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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