AFP PHOTO / MARK RALSTON
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Casa Branca chancela documento que admite ação humana no aquecimento global

Segundo a Avaliação Nacional do Clima, estudo realizado a cada quatro anos, 'não há nenhuma explicação alternativa convincente' para justificar o aumento de temperatura no planeta; governo Trump implementa medidas que contrariam relatório

O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2017 | 17h31

WASHINGTON - De acordo com um exaustivo relatório científico divulgado sexta-feira, 3, por 13 agências federais dos EUA, a Terra está passando por seu período mais quente na história da civilização e os humanos são a principal causa para a elevação da temperatura ocorrida desde o início do século 20. O texto foi aprovado pela Casa Branca antes da sua publicação, apesar de contradizer grande parte das posições defendidas pelo governo de Donald Trump em relação às mudanças climáticas.

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A tendência de longo prazo de aquecimento global é "inequívoca", diz o relatório. "Não há nenhuma explicação alternativa convincente" de que qualquer coisa além dos humanos - e dos carros que dirigimos, das usinas que operamos, e das florestas que destruímos - seja culpado por isso.

 

As conclusões do relatório foram divulgadas ao mesmo tempo em que a administração Trump tenta defender suas políticas sobe mudança climática em várias frentes. 

As Nações Unidas realizam sua conferência anual sobre mudanças climáticas na próxima semana em Bonn, na Alemanha, e a delegação americana deve enfrentar críticas severas em razão da decisão de Trump de se retirar do acordo de Paris sobre o clima, além de declarações de várias autoridades americanas questionando as causas e impactos de um planeta mais aquecido

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"Este relatório tem algumas declarações muito poderosas e duras, que estão totalmente em desacordo com funcionários do alto escalão da administração americana e com suas políticas", diz Philip B. Duffy, presidente da Woods Hole Research Center. "O texto questiona, por exemplo, onde os membros do governo obtém as informações nas quais se baseiam. Eles, claramente, não estão usando os dados de seus próprios cientistas."

Segundo o estudo, todas as partes dos EUA já foram afetadas pelo aquecimento global, das secas no Sudeste a inundações no Centro-Oeste, além de um aumento preocupante das temperaturas do ar e do solo no Alasca. E a tendência é que as condições cotinuem piorando.

"Esta avaliação conclui, com base em evidências extensas, que é extremamente provável que as atividades humanas, especialmente as emissões de gases de efeito estufa, sejam a principal causa do aquecimento observado desde meados do século 20. Para o aquecimento ao longo do século passado, não há uma explicação alternativa convincente", afirma o relatório.

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"O clima global deve continuar a mudar ao longo deste século. A magnitude das mudanças climáticas além das próximas décadas dependerá principalmente da quantidade de gases de efeito estufa emitidas globalmente", completa o estudo.

O relatório faz parte de uma revisão obrigatória determinada pelo Congresso e realizada a cada quatro anos, conhecida como Avaliação Nacional do Clima (NCA, na sigla em inglês). Produto de centenas de especialistas e cientistas do governo e da academia, revisados pela Academia Nacional de Ciências, é considerado a declaração mais definitiva dos Estados Unidos sobre as mudanças climáticas.

Apesar de suas conclusões, nenhuma das agências federais americanas, ou mesmo a Casa Branca, tomaram qualquer atitude para impedir sua publicação. Pelo contrário: o texto final passou pelo Escritório da Casa Branca sobre Políticas de Ciência e Tecnologia, apesar de muitos cientistas envolvidos na pesquisa temerem que o governo Trump pudesse bloquear a publicação.

Os pesquisadores dizem que agora, com a publicação do NCA, criou-se uma situação incomum, na qual as políticas do governo estão na direção oposta ao que a ciência produzida no país acredita.

Alguns críticos dos estudos sobre as mudanças climáticas, no entanto, atacaram o texto que, segundo eles, seria um resquício da administração do ex-presidente Barack Obama e criticaram o governo Trump por permitir a publicado do relatório. 

Outros disseram que a ciência pode ser válida, mas que essas descobertas não devem afetar as leis para enfrentar o aumento das emissões.

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"Eu realmente não acho que isso (o relatório) deve determinar as políticas (climáticas)", disse Marlo Lewis Jr., membro sênior do Competitive Enterprise Institute. Ele disse não negar que a maioria do aquecimento seja causada por emissões feitas pelo homem. "Mas também afirmo que existem riscos nas políticas climáticas, bem como nas mudanças climáticas. Para mim, a questão real é onde estão os riscos? Suprimir sua economia nunca é uma boa solução."

"Este novo relatório simplesmente confirma o que nós já sabíamos. Mudanças climáticas causadas pelo ser humano não são apenas uma teoria, mas uma realidade", disse Michael E. Mann, renomado professor de ciência atmosférica e diretor do Earth System Science Center da Penn State University.

"Se estamos falando de ondas de calor sem precedentes, furacões cada vez mais destrutivos, seca épica e inundação de nossas cidades costeiras, os impactos das mudanças climáticas não são mais sutis. Eles estão sobre nós. Esse é o consenso de nossos melhores cientistas, e isso foi exposto neste último relatório."/ NYT

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