AP Photo/Shizuo Kambayashi
AP Photo/Shizuo Kambayashi

Casamento de neta do imperador com plebeu provoca debate sobre crise de sucessão no Japão

Princesa Mako perderá o título de nobreza se oficializar sua união com Kei Kamuro em razão de uma lei que se aplica somente às mulheres

O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 12h25

TÓQUIO - O Japão estremeceu com a notícia do casamento que acontecerá em breve entre a neta do imperador e um plebeu, uma união que a excluirá da família imperial, ameaçada há muito tempo por uma crise de sucessão por falta de um herdeiro homem.

A notícia foi revelada na terça-feira 16 pela emissora NHK e desde então domina os debates na televisão e nos jornais, à espera de um anúncio oficial nas próximas semanas.

A princesa Mako, de 25 anos, é a filha mais velha do príncipe Akishino, o segundo filho do imperador. O futuro marido, Kei Kamuro, de 25 anos, recebeu a imprensa por alguns minutos na quarta-feira. Ele evitou as perguntas sobre o noivado e prometeu falar sobre o tema no "momento adequado".

Se Mako casar com o jovem, que conheceu na universidade, ela perderá o título de nobreza, em consequência de uma lei polêmica que não é aplicada aos homens. O imperador Akihito e seus dois filhos casaram com plebeias, que agora integram a família imperial.

Imperatriz. No momento em que o país se prepara para ver a primeira abdicação de um imperador em 200 anos, a notícia do noivado de Mako provocou o retorno da inquietação sobre o futuro do Trono de Crisântemo e reaviva o debate sobre uma revisão da lei, com o objetivo de aumentar as possibilidades do nascimento de herdeiros masculinos. Os conservadores - entre eles o primeiro-ministro, Shinzo Abe - são contrários à mudança, apesar do Japão já ter sido governado por mulheres.

"Esta boa notícia destaca mais uma vez o desafio que a família imperial enfrenta", comenta o jornal Asahi Shimbun. "Atualmente há sete membros com menos de 30 anos, 6 deles mulheres". O único homem é Hisahito, irmão de Mako, de 10 anos.

Antes do nascimento de Hisahito em 2006, o Japão cogitou a possibilidade de permitir uma mulher no trono, o que na época teria autorizado a neta do imperador, a princesa Aiko, a se tornar um dia imperatriz. Mas a perspectiva irritou os mais conservadores, como o ex-ministro da Economia e Indústria Takeo Hiranuma, que se rebelou contra uma painel que examinava a opção.

"O painel pensou no que aconteceria se a princesa Aiko se casasse com um homem de olhos azuis que conhecesse estudando no exterior, e na possibilidade de que seu primeiro filho se tornasse imperador?", questionou.

Akihito - que sucedeu em 1989 seu falecido pai, Hirohito - expressou em agosto de 2016 o desejo de abdicar por sua idade avançada, e uma lei está sendo preparada para que possa fazer isto em favor de seu filho, o príncipe herdeiro Naruhito. Depois dele, seu irmão, o príncipe irmão Akishino, e o filho deste, Hisahito, de 10 anos, são os possíveis sucessores.

Contudo, não há mais herdeiros masculinos após Hisahito e linha de vários séculos de sucessão masculina pode ser interrompida se este não tiver um filho. Outra solução seria, para alguns, restituir aos membros da família imperial os títulos que foram retirados pelas vastas reformas realizadas durante a ocupação americana após a derrota japonesa na 2.ª Guerra.

O jornal conservador Sankei Shimbun destaca em um editorial a importância da "história de 125 gerações de sucessões masculinas". "Em um momento no qual o número de membros da família do imperador e da imperatriz diminui, devemos pensar seriamente em medidas que protejam a família imperial", escreve a publicação, ao defender o restabelecimento dos títulos perdidos. / AFP

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