CLÁUDIA TREVISAN/AE
CLÁUDIA TREVISAN/AE

Casar mortos, tradição que resistiu a Mao na China

Segundo crença milenar, chineses que morrem solteiros precisam de uma noiva cadáver e famílias pagam dote por casamento no além

Cláudia Trevisan, enviada especial, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2011 | 14h59

PROVÍNCIA DE SHAANXI - Quando Yang Xin Hua e Li Na se casaram, no dia 18, ambos já estavam mortos. Vítima de um acidente de trabalho, Yang havia sido enterrado dois anos antes e, desde então, sua família procurava o corpo de uma mulher que pudesse se unir a ele no além. A busca terminou no mês passado, quando Li morreu de complicações cardíacas e seus pais concordaram com o matrimônio, em troca de um "dote" de 100 mil yuans (R$ 28,4 mil).

 

Duramente reprimida durante os anos do maoismo e da Revolução Cultural (1966-1976), a tradição milenar de "casamentos fantasmas" renasceu com força depois do processo de abertura iniciado em 1978 e ganhou ainda mais popularidade em anos recentes. A prosperidade econômica e o dinheiro movimentado pela indústria do carvão em províncias como Shaanxi inflacionaram esse mercado, no qual o preço do corpo de uma mulher jovem pode chegar a 200 mil yuans (R$ 57 mil).

 

Os 100 mil yuans que desembolsou pela noiva do filho equivalem a cinco vezes a renda anual do camponês Yang Yu Lin, de 55 anos. "Um corpo custa mais caro do que uma pessoa viva", disse sua mulher, Shi Cui E, de 52.

 

O dinheiro saiu da indenização de 200 mil yuans que a família recebeu da empresa onde o filho trabalhava. Yang Xin Hua tinha 20 anos quando a retroescavadeira que dirigia caiu em uma ribanceira, provocando sua morte.

 

De acordo com a tradição chinesa, homens solteiros com mais de 12 anos não podem ser enterrados sem uma mulher. Se isso ocorrer, acredita-se que infortúnios atingirão sua família, incluindo as futuras gerações.

 

Como nem sempre é possível encontrar uma "noiva cadáver" de maneira imediata, muitos casamentos ocorrem anos depois da morte. No caso de Yang Xin Hua, seus pais exumaram seu corpo, o vestiram com roupas apropriadas e realizaram a cerimônia com o corpo de Li Na, morta aos 22 anos, também vestida para a ocasião e acompanhada de seus pais. O casal foi enterrado numa nova tumba, na qual foram colocados utensílios de uso cotidiano, como pratos, toalhas, pentes, espelhos e bonecos de papel imitando serviçais.

 

Na parede da casa dos pais do noivo, está pendurada uma montagem com as fotos de Yang Xin Hua e Li Na. Os dois nunca se encontraram em vida, mas estão emoldurados numa típica foto de família e enterrados lado a lado. "Estou aliviado. Agora ele vai ter uma vida melhor no além", disse seu pai ao Estado.

 

O camponês trabalha como operário na construção civil e ganha cerca de 20 mil yuans (R$ 5,7 mil) por ano. Sua mulher não trabalha e a família não tem assistência médica gratuita nem Previdência Social. Ainda assim, gastaram quase 70 mil com o casamento, além dos 100 mil dados à família da noiva.

 

O valor incluiu o pagamento de intermediários, o transporte do corpo, que estava em uma vila a 120 km de distância, a contratação de pessoas que realizaram o enterro-casamento, a compra de roupas e dos objetos colocados na tumba e a contratação de músicos para tocar na cerimônia. "Era necessário. Essa foi a última vez em que gastamos dinheiro com nosso filho", justificou Yang.

 

O governo chinês conseguiu instituir a prática da cremação nos grandes centros urbanos, mas os enterros continuam a ser utilizados na zona rural, onde vive mais da metade da população do país. Com eles sobreviveram os "casamentos fantasmas", apesar do violento ataque às tradições lançado no período de Mao Tsé-tung, que ocupou o poder da China de 1949 até sua morte, em 1976.

 

A prática não é encontrada em todo o interior do país. É mais frequente em certas regiões das províncias de Shaanxi, Shanxi, Henan, Hebei e Shandong e do município de Tianjin, segundo o professor de Cultura Popular da Universidade de Xangai Huang Jingchun, em entrevista por telefone.

A força das crenças ancestrais fica evidente no fato de que um dos locais em que a prática persiste é a cidade de Yan’an, principal base comunista durante a guerra civil contra os nacionalistas e ícone do "turismo revolucionário" na China.

 

A poucos quilômetros do local onde Mao e seus camaradas viveram, fica a Rua Ermalu, onde estão as lojas que vendem materiais utilizados em funerais. Ninguém se mostrou surpreso quando uma chinesa perguntou se eles poderiam ajudá-la a encontrar um corpo para seu primo recém-falecido. Segundo cinco pessoas consultadas, o preço médio vai de 70 mil a 80 mil yuans (R$ 23mil), mas pode atingir 200 mil yuans (R$ 57 mil).

 

No maior hospital da cidade, um funcionário do necrotério estabeleceu o preço em 200 mil yuans, sem barganha, e disse que era necessário esperar. Em seguida, deu à chinesa um caderno com uma longa lista de nomes e telefones de pessoas em busca de corpos e pediu que ela escrevesse o seu número.

 

"Celebrar ‘casamentos fantasmas’ não é mais um segredo. As famílias até divulgam o fato, para mostrar aos outros que cumpriram suas obrigações com seus filhos e filhas", afirmou o professor Huang.

Não há estatísticas sobre números de uniões de pessoas mortas, mas todas as pessoas que a reportagem do Estado entrevistou durante três dias em Shaanxi falaram do assunto como algo longe de ser incomum.

 

Procura por ‘noivas cadáveres’ aumenta e preço inflaciona

 

"O ‘casamento fantasma’ é necessário para todo o homem com mais de 12 anos que morre solteiro", afirma de maneira categórica Pang Shende, de 68 anos, integrante da terceira geração de sua família dedicada à realização de funerais no condado de Hengshen, na cidade de Yulin. Em chinês, o título de Pang e seus colegas de trabalho é "senhor yin yang", os mesmos "yin yang" do taoismo que indicam inúmeras dicotomias, como feminino-masculino, negativo-positivo e lua-sol.

 

No caso dos responsáveis pelos enterros, a tradução mais apropriada é "senhor trevas-luz". O nome vem da crença de que essas pessoas têm o poder de fazer a comunicação e a pacificação entre este mundo e o além. Durante a Revolução Cultural (1966-1976), Pang foi classificado de "demônio", proibido de praticar sua profissão e enviado para trabalhar no campo, como milhões de outros chineses.

 

Sob as ordens de Mao Tsé-tung, os funerais passaram a ser extremamente simples e desprovidos dos rituais que haviam sido praticados por milênios pelos chineses. Com um sorriso vitorioso, Pang lembra que muitas famílias desenterraram seus mortos depois da Revolução Cultural, para dar-lhes uma cerimônia condizente com a tradição chinesa.

 

"Naquela época o governo era muito rigoroso, mas agora não, porque essa é uma tradição muito antiga, que eles não conseguem controlar", observou Pang em relação aos ‘casamentos fantasmas’, acendendo um cigarro após o outro.

 

Fumar compulsivamente parece ser uma característica comum dos "senhores yin yang", como típicos homens da zona rural chinesa. No campo, oferecer cigarros é um gesto de cortesia quase obrigatório, que se repete sempre que dois homens começam a conversar.

 

Bai Heng Sheng, de 41 anos, realiza de três a quatro "casamentos fantasmas" por ano e cerca de dez funerais tradicionais a cada mês nos arredores da vila Majiashan, a uma hora e meia de carro de Yan’an. "É mais raro pessoas jovens morrerem."

 

Segundo ele, o número de casos aumentou em anos recentes, assim como o preço dos corpos das "noivas cadáveres".

 

Na opinião do professor de Cultura Popular da Universidade de Xangai Huang Jingchun, a inflação se deve ao aumento da renda da população, mas principalmente à crescente popularidade da cerimônia. "Se os pais ou parentes não realizam ‘casamentos fantasmas’ para os que morreram solteiros, eles vão se sentir muito ansiosos e qualquer coisa ruim que acontecer será vista como um sinal de que eles não cumpriram suas obrigações em relação ao morto", disse Huang.

 

Com 76 anos, Zhu Sheng Gui organiza funerais há quase meio século na vila Zhang Er, próxima de Yan’an. "Na época de Mao, até atuar como casamenteiro era proibido, mas hoje a superstição nessa região é muito forte."

 

Com os frequentes acidentes em minas de carvão de Shaanxi e Shanxi, o número de jovens do sexo masculino que morrem é maior que os do sexo feminino, o que acentua o já grave desequilíbrio populacional da China, onde há mais homens que mulheres.

 

Com a alta do preço e a escassez de corpos, muitas famílias pobres não conseguem realizar "casamentos fantasmas" para seus filhos e optam por imagens de mulheres que são colocadas no túmulo ao lado do morto, afirmou Pang.

 

Prática faz crescer tráfico de corpos

 

Na Província de Hebei, vizinha a Pequim, 12 corpos desapareceram em 2010, roubados por um grupo organizado que os vendeu por 40 mil yuans (R$ 11,4 mil) cada. O chefe da quadrilha era o administrador de um necrotério em Dezhou, na Província de Shangdong, que confessou à polícia ter ganho cerca de 800 mil yuans (R$ 228,6 mil) em um ano com o tráfico de corpos.

 

Em 2007, uma mulher de Shanxi matou uma menina de 12 anos para vender seu cadáver. No ano anterior, um homem assassinou uma adolescente e uma prostituta e vendeu os corpos para famílias em busca de noivas para seus filhos já enterrados.

 

A crença cria um dilema para a viúva que se casa pela segunda vez. Qual marido ficará com seu corpo? Quando isso ocorre, a família do primeiro marido exige que a do segundo assine um documento prometendo que o corpo da mulher voltará para ser enterrado com ele, o que deixará a família do segundo com o problema de encontrar uma nova noiva no momento de sua morte. Os acordos nem sempre são cumpridos, o que cria conflitos que exigem a intervenção dos "senhores yin yang".  

 

PARA ENTENDER - Após a morte, a réplica da vida

 

Os chineses acreditam que a vida depois da morte é uma réplica da real e se passa em um mundo subterrâneo, no qual as demandas materiais e emocionais são idênticas às dos vivos. A família dos que vão para o além tem a obrigação de suprir essas necessidades, sob pena de ser assombrada ou punida pelos espíritos.

 

"O ‘casamento fantasma’ não é difícil de entender. As pessoas também precisam ter uma vida em matrimônio no mundo subterrâneo", disse Huang Jingchun, professor de Cultura Popular da Universidade de Xangai. As cerimônias são extremamente elaboradas, com rituais que "guiam" o espírito para sua nova vida. Para garantir que o morto terá tudo o que necessita, a família queima reproduções em papel ou papelão de objetos de uso diário, que se tornam cada vez mais sofisticados na medida em que a sociedade chinesa enriquece.

 

Além de casas, dinheiro e roupas, o fogo também consome imagens de cartões de crédito, computadores, iPhones, iPads, carros, maquiagem, cavalos, geladeiras, ar-condicionado, carruagens, empregados e até aviões. A maior parte das imagens é industrializada e produzida em massa. Mas nas vilas rurais, existem artesãos que se dedicam à arte de criar oferendas de papel de acordo com o desejo do freguês.

 

O culto aos ancestrais é um elemento central do confucionismo e da civilização chinesa e, como outras tradições, sobreviveu ao ataque violento de Mao Tsé-tung ao que classificava de "superstições feudais". Essa é uma das razões pelas quais ter filhos é tão importante na cultura chinesa. Sem eles, os que morrem não terão quem os cultue e garanta seu bem-estar no além.

 

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