Cavallo volta dos EUA e colide com governadores

O parto do novo pacote de medidas econômicas para reativar a abalada economia argentina ainda não tem hora marcada. Semanas atrás, esperava-se que a gestação fosse rápida, para aplacar os efeitos da avalanche de índices negativos que a economia local apresentava. No entanto, o anúncio do pacote está depende de um acordo financeiro entre o governo do presidente Fernando De la Rúa e os governadores das províncias argentinas, que ontem tiveram uma atribulada reunião com o ministro da Economia, Domingo Cavallo. A reunião terminou sem resultados, depois de uma impublicável troca de insultos entre os dois lados. A demora do anúncio do pacote causou ontem (quinta-feira) mais uma jornada de queda na Bolsa de Buenos Aires, que fechou com uma perda de 0,33%. Além disso, a taxa de risco do país continuou sua escalada, passando de 1.727 pontos para 1.768 pontos. Em Buenos Aires voltaram as especulações sobre o fim do período ?cavallista? no ministério da Economia, que foram acompanhadas de notícias sombrias sobre o desempenho da economia nativa, entre elas, o anúncio de que a cada hora na Grande Buenos Aires treze pessoas perdem seu trabalho. A carne obteve seu preço mais baixo desde os tempos da hiper-inflação: US$ 0,62 o quilo do novilho, fato que indicou o aprofundamento da recessão. Outro fator que trouxe pessimismo aos mercados foi o fracassado retorno dos Estados Unidos de Cavallo. O ministro havia desembarcado misteriosamente na terça-feira em Nova York, para supostamente apresentar seu novo pacote de medidas para os organismos financeiros internacionais e investidores. No entanto, Cavallo também teria ido para sondar o clima nos EUA quanto a uma eventual dolarização da economia argentina. Ademais, o ministro teria tentado conseguir apoio explícito dos EUA para a operação de reestruturação da dívida que o governo federal argentino possui com os Fundos de Pensões locais. Oficialmente, a reestruturação é voluntária, mas extra-oficialmente os Fundos de Pensões estão sentido-se pressionados. No próximo sábado, será a vez do vice-ministro da Economia, Daniel Marx, que partirá para o Canadá, na caça de apoio dos organismos financeiros internacionais para a operação de reestruturação da dívida externa pública. Marx aproveitará para procurar o apoio durante a reunião preparatória dos ministros das Finanças e os presidentes dos Bancos Centrais dos países do Grupo dos 20. Como era de se esperar, Cavallo não fez declarações sobre sua viagem aos EUA, e tratou-a como se ela não tivesse ocorrido. Quando as notícias são ruins, o polêmico ministro costuma submerger em profundo silêncio. No entanto, o ministro foi verbalmente exuberante na reunião com os governadores, que estavam irritados depois de onze dias de espera na capital argentina. A paciência dos governadores estava no fim e ameaçavam voltar para suas províncias. Cavallo começou então um longo discurso de 35 minutos sobre as penúrias do governo federal e a necessidade de sacrifícios das províncias. De repente, o governador da província de Santa Cruz, Néstor Kirchner, farto, levantou-se e avançou em direção a Cavallo, como se fosse atacá-lo. No entanto, Kirchner parou no meio do trajeto que o levaria à colisão com o ministro e começou a insultá-lo com o dedo em riste, derrubando ponto por ponto dos argumentos que Cavallo havia exposto minutos antes. Cavallo ficou vermelho de raiva, enquanto sua testa franzia rapidamente, um tique característico de quando está nervoso. Rapidamente, o cantado sotaque cordobês (de sua província natal, Córdoba, no interior do país) do ministro aflorou com intensidade e respondeu a Kirchner com uma saraivada de insultos. Para completar a cena, diversos governadores esmurravam a mesa das reuniões, causando a queda de diversas garrafas de água mineral no chão. Todos os assessores dos governadores presentes foram colocados para fora da sala de reuniões. As portas foram fechadas, mas a gritaria continuou lá dentro, sendo perceptível para aqueles que estavam fora. Dono de uma poderosa bexiga, Cavallo agüentou quase seis horas sem ir sequer ao banheiro. Mas no final, os governadores declararam que estavam ?fartos da intransigência do governo federal, que não decide nada? e anunciaram que iam embora. Segundo os governadores Adolfo Rodríguez Saa (da província de San Luis) e Kirchner, os secretários de Economia de cada província ficarão negociando em Buenos Aires com o ministro Cavallo. ?Vamos embora. Não vimos vontade política alguma para conseguir um acordo?, explicou Saa. No fim da noite de ontem, o governo esperava que pelo menos os governadores da coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso assinassem o acordo. No entanto, esta seria somente uma vitória parcial, já que os governadores do Partido Justicialista (Peronista) controlam as maiores e mais ricas províncias do país, e entre elas, as mais endividadas. As províncias pedem o refinancimento de suas dívidas com um grupo de bancos (ao redor de US$ 8 bilhões) com uma taxa de juros reduzida, que passaria dos atuais 20% para somente 7%. Além disso, exigem a manutenção das entregas mensais de verbas enviadas pelo governo federal, no total de US$ 1,36 bilhão. Os governadores concordavam com uma proposta do governo De la Rúa de pagar em Lecop (bônus federais) a parte que a União não conseguisse arrecadar de forma suficiente para remeter às províncias. O problema pendente era o futuro das remessas de US$ 1,36 bilhão para o ano que vem. Todos Contra - ?Se continuar neste caminho, o presidente De la Rúa não termina seu mandato?. Estas foram as declarações de uma das principais lideranças do Partido Justicialista (Peronista), o ex?vice-presidente da República, ex-governador da província de Buenos Aires e senador eleito, Eduardo Duhalde. O líder peronista sustentou que De la Rúa ?precisa mudar?. ?Se ele não mudar, o futuro dos argentinos é negro?. Outro peronista, o líder sindical Luis Barrionuevo, foi mais drástico: ?não temos porque continuar agüentando e sustentando o presidente?. Barrionuevo propôs a convocação imediata de eleições presidenciais, além da alternativa que ?alguém? assuma a presidência do país até as eleições de 2003. Referindo-se aos rumores que circulam em Buenos Aires sobre hipotéticos problemas de saúde do presidente, o líder sindical pediu a De la Rúa que renuncie. O secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) dissidente, Hugo Moyano, afirmou que De la Rúa teria que ter ?a atitude patriótica de convocar eleições antecipadas?. As críticas não provêm somente da oposição, mas também da própria coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso, que vive uma existência moribunda. A UCR, partido do presidente De la Rúa, mas controlado com mão de ferro pelo ex?presidente Raúl Alfonsín, emitiu um comunicado pedindo ?uma mudança no rumo das políticas econômicas e sociais?, além de considerar ?imprescindível? um consenso com as organizações empresariais e sindicais. A mudança de rumo, segundo o documento deve ter como ponto de partida ?a reestruturação da dívida pública?. Na Frepaso, a insatisfação com o governo prevalece, principalmente depois da renúncia, no fim de semana, do ministro do Desenvolvimento Social, Juan Pablo Cafiero, o último remanescente frepasista no gabinete De la Rúa. A grande maioria dos 23 deputados frepasistas anunciou ao líder do bloco na Câmara, Dario Alessandro, que oficializariam o racha da coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso na próxima terça-feira, retirando o partido. Alessandro, defensor da Aliança, é uma minoria, já que conta somente com quatro deputados. Desta forma, estaria terminada a agonia de mais de um ano da coalizão Aliança, que foi fundada em 1997 com a união da centenária e tradicional UCR e da centro-esquerdista Frepaso, mas que sofreu um golpe mortal desde a renúncia do vice-presidente Carlos ?Chacho? Álvarez em outubro do ano passado.

Agencia Estado,

26 Outubro 2001 | 00h47

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