Cenário: Ataque preciso afetou pouco rotina de sírios, mas foi devastador

De acordo com dois funcionários da área comercial da representação brasileira na Síria, ataques foram sentidos 'primeiro, como imensos riscos de fogo, depois com os estrondos'

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2018 | 06h00

Ontem, em Damasco, a madrugada era de céu claro e lua crescente. Os cafés da Avenida Abed ainda tinham algum movimento. Os lojistas do bazar da calçada larga do Boulevard Sukhri preparavam um novo dia de vendas. O primeiro sinal do ataque que viria em seguida foi sentido apenas pelas pessoas que, de repente, viram os celulares ficarem mudos e cegos. A barragem eletrônica que sempre precede as operações aéreas dos Estados Unidos já havia começado, bem antes até, no bloqueio das redes militares de comunicações - mas só naquela hora, pouco antes do amanhecer, atingia a telefonia móvel civil. De acordo com dois funcionários da área comercial da representação brasileira na Síria, as primeiras explosões foram sentidas na direção leste da cidade, “primeiro, como imensos riscos de fogo, depois com os estrondos.”

EUA indicam que só voltarão a atacar Síria se armas químicas forem usadas

Ainda ontem enfrentando restrições nas chamadas, os dois homens contaram ao Estado que tentaram chegar à sede da embaixada na Avenida Al-Farabi, no distrito de Mezzeh, “mas os táxis do setor hoteleiro haviam desaparecido, embora a agitação estivesse a quilômetros de distância”. Quando o dia ia alto, a vida parecia normal, com famílias passeando nos parques. Ao meio-dia houve uma manifestação organizada pelo partido Baath, do ditador Bashar Assad, em apoio ao regime. As emissoras de televisão transmitiram ao vivo.

A devastação foi grande nas áreas atingidas pelos 105 mísseis empregados no ataque. Dois complexos militares estratégicos, as instalações da 14ª Brigada Blindada e da Guarda Republicana, foram destruídos. A Guarda é uma tropa especial, subordinada diretamente ao gabinete de Assad, e a Brigada, responsável pela campanha de retomada das posições no centro do país, em 2017, uma organização de 7.000 combatentes com larga experiência na luta contra os rebeldes que querem depor o presidente. 

Os mísseis de cruzeiro Tomahawk foram os mais utilizados, 66 deles disparados a partir do Mediterrâneo por um cruzador, dois destróieres, e um submarino da Marinha dos EUA. Os impressionantes bombardeiros supersônicos B-1B Lancer promoveram o batismo de fogo dos novos AGM 158 JASSM-ER, de alta precisão - na faixa de um metro, segundo a empresa fabricante, Lockheed-Martin - lançando 19 deles em direção aos alvos mais próximos de zonas civis “na intenção de reduzir indesejáveis danos colaterais”, de acordo com o general Joe Dunford, chefe do Estado-Maior Conjunto das forças americanas. 

Os caças britânicos Tornado GR4, veteranos supersônicos com mais de 30 anos de uso, mandaram em frente 8 unidades do Storm Shadow, com raio de ação de 300 km e uma novidade tecnológica: sensores que os tornam “invisíveis” aos radares de defesa antiaérea. O grupo francês envolvido na operação pelo presidente Emmanuel Macron teve a missão de despejar fogo sobre os depósitos de agentes químicos de Homs por meio de 12 mísseis Scalp (versão simplificada do Storm Shadow) disparados por fragatas e caças Rafale. A defesa síria, equipada com o sistema antimíssil S-400, teria interceptado de 13 a 17 artefatos. 

Nas duas bases russas - Tartus, no litoral, e Hmeimim, no interior -, as atividades de rotina foram alteradas. Não houve voos de patrulha e vigilância na sexta-feira e ontem. Os navios se afastaram até além da barra marítima, cerca de 5,5 quilômetros.

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