Mariana Bazo/Reuters
Mariana Bazo/Reuters

Cenário: Corrupção ameaça governo peruano

A opositora Keiko Fujimori apresentou moção de impeachment contra o presidente Kuczynski e ameaça desmontar a administração peça por peça

THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 05h00

O escândalo de corrupção que abalou a governança no Brasil por quase quatro anos está se espalhando lentamente pela América Latina em decorrência das confissões de uma construtora de que teria distribuído centenas de milhões de dólares em propina em mais de uma dezena de países. O vice-presidente do Equador foi condenado a 6 anos de prisão na semana passada por receber pagamentos da construtora Odebrecht, e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, está sendo acusado por um funcionário da empresa de ter recebido contribuições de campanha em troca de contratos.  

Mas em nenhum país latino-americano o estrago vem sendo tão grande quanto no Peru, onde dois ex-presidentes estão sendo processados e o atual poderá ser afastado do cargo nesta semana. O que piora a situação é que o presidente Pedro Pablo Kuczynski, alvo de um pedido de impeachment da oposição que deverá ser votado nesta quinta-feira, não parece ser culpado de nada além de esconder do público uma conexão ainda que aparentemente indireta com a Odebrecht.

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Há poucas dúvidas de que a frágil democracia do Peru tenha sido invadida e corrompida pela Odebrecht. Em 2016, a empresa admitiu num acordo com o Departamento de Justiça dos EUA ter pago US$ 29 milhões em propinas no país andino. A Odebrecht, no entanto, disse que não fez nenhum pagamento ilegal a Kuczynski, um ex-banqueiro de Wall Street que tomou posse há 16 meses com uma plataforma anticorrupção. O que ela fez foi pagar US$ 4,8 milhões a duas consultorias de propriedade de Kuczynski e de um sócio durante uma década.

Kuczynski, que fazia parte de um governo anterior quando foram assinados alguns dos contratos emn questão, disse que nada recebeu irregularmente nem soube de nenhuma operação irregular. Disse ainda que participou de apenas uma transação envolvendo a consultoria, sobre um projeto de irrigação, quando estava fora do governo. Não há evidências de que tenha aceitado propina ou dinheiro de campanha em troca de contratos governamentais – acusação feita contra ele pelos ex-presidentes Alejandro Toledo e Ollanta Humala. Mas Kuczynski deu declarações enganosas, negando até a semana passada que tivesse tido qualquer conexão com a Odebrecht.

As acusações foram encampadas pela líder populista derrotada nas eleições de 2016, KeikoFujimori, ela própria sob investigação por receber dinheiro da Odebrecht. Na semana passada, Keiko apresentou uma moção de impeachment contra Kuczynski por “permanente incapacidade moral”, acusação que não exige nenhuma prova de irregularidade e muito menos justifica um processo. Controlando 71 das 130 cadeiras do Parlamento, Keiko conseguiu reunir facilmente os votos necessários para pedir a remoção de Kuczynski, que controla apenas 18 cadeiras.

Kuczynski vem lidando mal com o problema, mas sua remoção apenas prejudicaria a democracia peruana. Eleito numa votação justa, ele pode ser afastado por iniciativa de uma opositora vencida, sob acusações vagas e num processo de apenas uma semana. A Constituição prevê que o mandato presidencial, em caso de remoção do titular, seja completado por um dos dois vice-presidentes. Ocorre que Keiko Fujimori, que já orquestrou a saída de três ministros e tem na mira vários juízes do Supremo, parece decidida a desmontar o governo peça por peça. Isso não é combate à corrupção: é abuso de poder. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ      

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