Rolando Enriquez/EFE
Rolando Enriquez/EFE

Cenário: Em disputa, o legado do mais cerebral dos líderes bolivarianos

Mesmo que consiga fazer seu sucessor, Correa sabe que os ventos mudaram. O preço das commodities caiu e o resultado veio nas urnas

Luiz Raatz / Enviado Especial, Quito, O Estado de S. Paulo

20 Fevereiro 2017 | 05h00

O movimento bolivariano criado por Hugo Chávez enfrenta momentos difíceis. Nicolás Maduro, que sucedeu Chávez, morto em 2013, não consegue debelar uma grave crise econômica. Evo Morales desafia a derrota que as urnas lhe impuseram há um ano e dá sinais de que tentará um novo mandato. Rafael Correa, o mais cerebral dos três, voluntariamente abriu mão de disputar mais um mandato diante do mau momento econômico do país. 

Mesmo que consiga fazer seu sucessor, Correa sabe que os ventos mudaram. O preço das commodities caiu e o resultado veio nas urnas. O kirchnerismo foi derrotado na Argentina, em 2015. Os venezuelanos deram à oposição sua segunda vitória em 16 anos na eleição legislativa do mesmo ano. Os bolivianos disseram não a Evo no referendo de 2016. Diante deste cenário, Correa se recolheu e alertou para a “restauração conservadora” no continente. 

O presidente ainda manejou a economia de uma maneira distinta a de seu padrinho bolivariano. Chávez apostava em programas de redução da pobreza e esbanjava o dinheiro do petróleo sem pensar no amanhã. Na última eleição que venceu, em 2012, dilapidou as reservas para criar uma falsa sensação de bonança, o que lançou as bases da crise atual. Correa também reduziu a pobreza com programas sociais, mas investiu em infraestrutura. Modernizou o país construindo estradas, aeroportos e hidrelétricas. A formação bruta de capital bateu seguidos recordes na última década, motivado pelo dinheiro estatal. 

De qualquer modo, o correismo já não mais se sustenta no Equador. Com o petróleo em baixa, Correa aumentou impostos e hipotecou o petróleo junto a investidores chineses. O próximo presidente terá dificuldades em fazer a conta fechar se não aceitar “cortar na própria carne”. “Esta eleição marca o fim do correismo, porque é impossível que, nas condições atuais, esse modelo continue sustentável”, explica o cientista político Simón Pachano, da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (Flacso).

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