Lianne Milton/The New York Times
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Cenário: Negócio de magnata põe aposentadoria de brasileiros em risco

Quando Donald Trump retirou seu nome de um hotel à beira-mar no Rio de Janeiro, em dezembro, sua empresa declarou que isso foi feito em razão de atrasos no projeto

Blake Schmidt e Michael Smith* / Bloomberg, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2017 | 05h00

Quando Donald Trump retirou seu nome de um hotel à beira-mar no Rio de Janeiro, em dezembro, sua empresa declarou que isso foi feito em razão de atrasos no projeto e chamou a medida de “limpeza de casa normal” nas semanas que antecederam a posse do presidente americano.

Procuradores e parlamentares brasileiros que estão investigando os fundos de pensão que investiram no projeto pintam um quadro que pode oferecer uma explicação diferente. Em documentos judiciais e entrevistas, investigadores dizem que a Trump Organization, num acordo negociado pelos filhos de Donald Trump, Donald Jr. e Ivanka, esteve à frente de um hotel bancado por personagens obscuros, fundos de pensão imprudentes e, assim suspeitam os procuradores, corrupção.

O Ministério Público Federal está investigando se o fundo FIP LSH, ao qual pertence o hotel, pagou propina a dois fundos de pensão estatais em troca de US$ 41 milhões de investimento e inflou artificialmente o valor da propriedade. As autoridades também investigam se a Trump Organization lucrou “via pagamento ilícito de comissões e propinas” para os fundos de pensão, segundo documentos judiciais. Ninguém da Trump Organization ou da própria empresa é alvo direto da investigação.

Adam Rosen, um advogado da Trump Organization, disse que a auditoria prévia foi realizada no projeto do Rio como em todos os empreendimentos de Trump. A LSH Barra disse que o hotel, agora chamado LSH Barra Hotel, manterá seus padrões de qualidade e buscará uma parceria para uma nova marca depois do rompimento amigável com Trump. Advogados de Trump buscaram garantias de que não havia dinheiro sujo envolvido para evitar potenciais violações da lei anticorrupção americana, de acordo com Paulo Figueiredo Filho, o empresário brasileiro que firmou o acordo com Trump, em 2013. 

Segundo Figueiredo, o negócio funcionou da seguinte maneira: os donos do hotel concordaram em pagar a Trump taxas para colocar seu nome no edifício e uma parcela da receita para administrá-lo, um arranjo comum. A Trump Organization empacou no negócio à medida que cresceu a investigação pública sobre os fundos de pensão Igeprev e Serpros, em meados de 2014. Trump teve a chance de sair do acordo de licenciamento em dezembro de 2015, segundo uma pessoa informada sobre o contrato. Sua empresa, porém, ficou por mais um ano, saindo dois meses após a investigação ser anunciada e algumas semanas antes da posse.

Em maio de 2015, reguladores começaram a reformar um dos fundos de pensão, o Serpros, que representa os aposentados de uma empresa de processamento de dados do Ministério da Fazenda, e substituíram toda a sua diretoria a partir de maio de 2015. A Polícia Federal investigou o outro fundo, Igeprev, que representa os pensionistas do funcionalismo público do Estado de Tocantins.

Um relatório interno do Igeprev, visto pela Bloomberg, revelou que o ex-presidente do fundo, Flavio Sales, agiu sem aprovação de seu próprio comitê de investimentos quando colocou R$ 35 milhões no hotel de Trump, em agosto de 2014. Sales não realizou estudos de risco e viabilidade antes de fazer um investimento “imprudente e altamente arriscado” contra as normas do fundo, segundo o relatório. 

Procuradores suspeitam que as ações sejam parte da “administração imprudente” do fundo de pensão Igeprev que, dizem eles, segue o mesmo modus operandi de outros fundos de pensão corruptos. Sales negou qualquer ilegalidade.

Pelo menos um grupo terá um grande prejuízo: os pensionistas. O fundo de Tocantins estima que seus aposentados perderam mais de R$ 264 milhões em 10 investimentos supostamente ilegais, um buraco que pode crescer até R$ 1 bilhão se outras 24 apostas questionáveis, entre elas o Hotel Trump, derem prejuízo. “Para nós, foi um mau negócio”, diz Clayrton Cleiber da Silva, de 41 anos, um assistente administrativo de Tocantins e líder sindical que cobrou investigações sobre o negócio com o atual presidente americano. Ele contribui com 11% de seu salário para o Igeprev. “Você teme que não tenha sobrado nada quando for retirar sua aposentadoria”, acrescentou.

Trump não tem esse problema. Apresar de ter saído do negócio, ele ainda deve ganhar dinheiro com o hotel. Como parte do acordo, os donos agora negociam para pagá-lo pelo uso de seu nome durante os cinco meses de demora até que ele fosse retirado da fachada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*SÃO JORNALISTAS

 

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