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Internacional

Mauricio Macri

CENÁRIO: Vitória de Macri tem grande impacto na América Latina

Embora de início tenha apenas tentado que fosse aplicada a Nicolás Maduro a cláusula democrática do Mercosul, apenas a ameaça já condicionou a posição do Brasil e colocou o presidente bolivariano em posição defensiva

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CENÁRIO: Carlos Malamud / Infolatam,
O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2016 | 02h00

A vitória de Mauricio Macri pôs fim ao longo ciclo kirchnerista. A notícia não só causou impacto na Argentina, mas também nas relações regionais e no âmbito do hemisfério. A profundidade das mudanças ocorridas, e das que ainda ocorrerão, varia também em função da área afetada, mas é provável que ocorram transformações importantes segundo o tamanho do país e a projeção internacional que o novo dirigente quer dar à Argentina.

Para começar, o governo deu uma guinada nas suas relações com a Venezuela. Embora de início tenha apenas tentado que fosse aplicada a Nicolás Maduro a cláusula democrática do Mercosul, apenas a ameaça já condicionou a posição do Brasil e colocou o presidente bolivariano em posição defensiva.

Mas na Cúpula do Mercosul, em 21 de dezembro, Macri foi contundente quanto aos presos políticos venezuelanos. Após qualificar como um “avanço” o reconhecimento por Caracas do triunfo da oposição nas eleições, destacou: “Nos Estados-membros do Mercosul não pode haver lugar para perseguição política por razões ideológicas nem a privação ilegítima da liberdade pelo fato de se ter um pensamento distinto.”

É possível que, esperando uma reação desse tipo, Maduro anunciou na última hora que não compareceria ao encontro, o que não o impediu de criticar seu colega, acusando-o de ser “burguês de elite, uma opção ultradireitista e neoliberal”. Diante da ausência de Maduro, a chanceler Delcy Rodríguez liderou a delegação venezuelana e fez uma intervenção sem brilho, acusando com dados falsos a política de direitos humanos de Macri. Embora Dilma Rousseff não aprecie que o chavismo seja criticado publicamente, na ocasião, teve de ceder para evitar uma discussão aberta sobre a situação dos presos políticos na Venezuela e a aplicação da cláusula democrática.

Amanhã, começará em Quito a 4.ª Reunião de Cúpula da Comunidade dos Estados Americanos e do Caribe (Celac), que deve contar com a presença de Maduro e da maioria dos mandatários da região. Macri não comparecerá, por recomendação médico. Portanto, os dois mandatários continuarão sem se defrontar. Apesar de não existir a ameaça de se requerer a aplicação da cláusula democrática, não é improvável que a vice-presidente argentina, Gabriela Michetti, ou algum outro presidente, volte a suscitar a questão. Será interessante ver como reagirão alguns governos da região que até agora evitaram criticar abertamente Hugo Chávez ou Maduro na cúpula da Celac. Tanto a condenação de Leopoldo López quanto o desenlace do processo eleitoral permitiram algumas declarações um pouco mais audaciosas do que no passado. Isso permite especular sobre a possibilidade de que, em Quito, veremos mais críticas à Venezuela.

A mudança na política externa argentina começou na América Latina, colocando Brasil e Mercosul como prioridades essenciais. A aproximação de Dilma Rousseff, do uruguaio Tabaré Vázquez e do paraguaio Horacio Cartes marca grande diferença com relação ao kirchnerismo. Provavelmente, não veremos discursos incendiários. Tudo indica que o novo governo argentino aposta numa revalorização da diplomacia, com tudo o que isso implica. Mas o que for dito nas próximas semanas, ao lado de alguns silêncios, dará a pauta do que pode ser o início de uma mudança importante nas relações regionais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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