Christophe Archambault, Pool via AP
Christophe Archambault, Pool via AP

Céu de brigadeiro

O presidente americano estava feliz, amável, humilde, conciliador, sensato, discreto, tímido: algo mudou. Macron estava radiante, mas aí não houve nenhuma mudança. 

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

Nenhuma nuvem no céu de Paris. E nenhuma nuvem no encontro de Emmanuel Macron com Donald Trump. O presidente americano estava feliz, amável, humilde, conciliador, sensato, discreto, tímido: algo mudou. Macron estava radiante, mas aí não houve nenhuma mudança. 

A felicidade de Trump é compreensível. Finalmente, ele encontrou um chefe de Estado que estava animado em recebê-lo e não fez insinuações sobre seus erros. Ao contrário: Macron, ao lado de sua mulher, a bela Brigitte, deu tapinhas nas costas de Trump, falou ao seu ouvido, e os dois riram como meninos. Brigitte, de branco, e Melania, de vermelho, admiraram a sublime catedral de Notre Dame.

Mas havia outra razão para o bom humor de Trump. Ele admitiu diversas vezes que adora paradas militares e gostaria de fazer uma em Washington no feriado nacional, mas lhe disseram que era caro demais. Como a França continua seguindo as tradições e é muito boa em desfiles de soldados, Trump ficou feliz em ver seus legionários, combatentes, soldados, tanques, etc.

A gente entende Trump: assistir à parada militar na tribuna de honra e passar umas horas longe de Washington – onde não há nada além de víboras, jornalistas vingativos e filhos encrencados, como Trump Jr. – foi como respirar ar fresco. Além disso, Macron foi muito gentil. Programou passeios refinados e intelectuais, um itinerário religiosamente percorrido por todos os turistas que invadem a capital a cada verão: Notre Dame, Palácio dos Inválidos, Arco do Triunfo, Champs-Elysées, túmulo de Napoleão. Uma Paris de “cartão postal” em tamanho real.

Macron também estava feliz. Primeiro porque, assim como Trump, é fã de cerimônias, paradas, clarins e soldados. Segundo, porque segue estreitando laços – muitas vezes de admiração – com chefes de Estado estrangeiros.

Em dois meses, ele encantou Putin, Trump e até Merkel, que adorava o ex-presidente François Hollande. O presidente chinês ainda não visitou Paris, mas a popularidade – até mesmo a fama – de Macron está no auge na China, assim como em quase todos os outros países.

Então, foi um lindo dia para todo mundo. Mas não sem uma desafinada, ironicamente, com esse mesmo Exército, que fez um belo desfile na Champs-Elysées. Na véspera do 14 de Julho, o general Pierre de Villiers, chefe do Estado-Maior, disse perante uma comissão da Assembleia Nacional que o Exército não aguenta mais. Empenhadas em todos os frontes, as Forças Armadas estão “no osso”. Faltam recursos, equipamentos e todos os homens estão esgotados. E, ainda por cima, Macron cortou ¤ 1 bilhão para equilibrar o orçamento. O general encerrou sua fala com essas palavras insólitas, mas resolutas: “Não vou deixar que eles me f...”.

Macron respondeu no dia seguinte. Aproveitando a presença do alto escalão militar na festa do 14 de Julho, disse: “Não penso que seja digno trazer certas questões para a praça pública. Assumi compromissos. Sou o líder. Os compromissos que assumi, saberei honrá-los. Não preciso de nenhuma pressão, de nenhum comentário.” Foi de arrepiar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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