U.S. Army/Handout via REUTERS
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Chelsea Manning, que vazou documentos ao WikiLeaks, deixa a prisão

Depois de cumprir 7 dos 35 anos de sua condenação no Quartel Disciplinar dos Estados Unidos, soldado foi libertada nesta quarta graças ao indulto concedido pelo ex-presidente americano Barack Obama antes do fim de seu mandato

O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 11h27

FORT LEAVENWORTH, EUA - Chelsea Manning, a militar transgênero que estava na prisão por um dos maiores vazamentos de documentos confidenciais da história dos Estados Unidos, foi libertada nesta quarta-feira, 17, graças ao indulto concedido pelo ex-presidente americano Barack Obama antes do fim de seu mandato.

Chelsea, que estava na prisão há sete anos, "foi libertada do Quartel Disciplinar dos Estados Unidos" em Fort Leavenworth, Kansas, disse a porta-voz Cynthia Smith.

Em julho de 2010, Manning - na época um soldado conhecido como Bradley Manning - foi preso pela divulgação, através do WikiLeaks, de um enorme tesouro de mais de 700.000 documentos secretos de militares e da diplomacia americana.

Depois de receber uma sentença de 35 anos de prisão por este vazamento, Chelsea foi libertada após sete anos graças ao indulto de Obama. Sem este presente de despedida de Obama, ela, que serviu como agente de inteligência no Iraque, permaneceria atrás das grades até 2045.

Chelsea, agora com 29 anos e de quem há poucas fotografias disponíveis publicamente, pode encontrar refúgio na casa de uma tia na região de Washington.

Seus apoiadores - Chelsea tentou se suicidar duas vezes no ano passado - temiam que não sobrevivesse a sua longa sentença. Agora, ela pode completar em liberdade seu processo de transição como uma mulher abertamente transgênero.

"Primeiros passos em liberdade", tuitou Chelsea nesta quarta, pouco depois de deixar a prisão, com uma foto mostrando seus pés.

Fama indesejada. Chelsea, que nasceu e Oklahoma, teve uma infância difícil. Após seus pais se divorciarem, se mudou para Gales com sua mãe, que reprimia sua sexualidade e ridicularizava seu jeito afeminado. Praticamente desconhecida no momento de sua prisão, ela agora é uma figura bem conhecida em todo o mundo.

Embora o presidente Donald Trump a tenha classificado de traidora, recebeu o apoio de personalidades e é encarada por muitos americanos como uma valente ativista de direitos humanos condenada injustamente por revelar mortes de civis provocadas pelos bombardeios americanos no Iraque e no Afeganistão.

Chelsea não pôde fugir do país, como fez Edward Snowden, que em 2013 publicou documentos que mostravam que a Agência de Segurança Nacional (NSA) coletava informações das comunicações de cidadãos americanos.

Antes de sua libertação, um grupo de músicos lançou um álbum com todos os lucros destinados a esta militar que começa uma nova vida. "Hugs for Chelsea" (Abraços para Chelsea), um álbum digital obtido através de uma doação de US$ 25, tem músicas de artistas conhecidos por seu ativismo de esquerda, incluindo Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine, e Thurston Moore, co-fundador do Sonic Youth.

Chelsea também se tornou um ícone para os ativistas Transgêneros. "A primeira coisa que Chelsea diz sempre quando falamos sobre a sua liberdade é que deseja retornar à comunidade transgênero, para lutar por muita gente trans, grande parte mulheres negras trans, que estão em custódia, para seguir conectada com as pessoas jovens que são trans", disse o advogado Chase Strangio, da ONG American Civil Liberties Union (ACLU), que também é transgênero.

"Tem um implacável senso da compaixão e da justiça, apesar de tudo que enfrentou", acrescentou Strangio.

Chelsea completará 30 anos em dezembro. Talvez na época tenha a aparência que deseja, depois que as autoridades da prisão negaram seu pedido de deixar o cabelo crescer mais que os cinco centímetros permitidos na prisão.

No entanto, com a ajuda dos advogados pôde começar atrás das grades um tratamento hormonal para transitar para sua identidade feminina.

Embora a sentença tenha sido comutada, a condenação permanece, embora ela tenha apelado. Por enquanto continua sendo funcionária do Exército, ainda que sem salário, e conserva seu seguro médico, de acordo com um porta-voz militar. / AFP

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