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Cidade de Chávez, uma utopia ameaçada pela crise na Venezuela

Comunidade inaugurada em 2015 no Estado de Carabobo oferece moradia e equipamentos públicos gratuitos para ceca de 15 mil venezuelanos; crise ameaça modelo, subsidiado pelo Estado

VALENCIA, VENEZUELA - Depois de dirigir por uma estrada em que se vê focos de lixo, comunidades pobres - nas quais a água suja escorre entre barracos - e passar por um posto de controle militar é possível acessar a Cidade Socialista Hugo Chávez, uma comunidade resplandecente, autossuficiente e tão limpa e organizada que parece o subúrbio de alguma cidade dos EUA.

Cerca de 15 mil pessoas vivem nesta comunidade utópica localizada na cidade de Valencia, no Estado de Carabobo. Elas têm acesso a hospitais, escolas, centros esportivos, jardins comunitários, centros de arte e locais de abastecimento com estudantes para auxiliá-lo de graça - em todos esses equipamentos públicos há pelo menos uma imagem do falecido presidente venezuelano, que dá nome à comunidade, com sua característica boina vermelha.

Conheça a Cidade Socialista Hugo Chávez, na Venezuela
AP Photo/Fernando Llano
Conheça a Cidade Socialista Hugo Chávez, na Venezuela

Um controle de acesso gerenciado pela Guarda Nacional Bolivariana determina quem pode ou não acessar a Cidade Socialista Hugo Chávez, em Valencia, no Estado de Carabobo; cerca de 15 mil pessoas vivem na utópica comunidade

No entanto, em razão da gravidade dos problemas que a revolução chavista enfrenta desde o enfraquecimento da economia do país, a tranquilidade deste paraíso para os trabalhadores venezuelanos pode estar com os dias contados. A Venezuela não tem dólares suficientes para pagar por produtos básicos, que estragam nos portos do país, e muito menos para continuar subsidiando a Cidade de Chávez e outros projetos que melhoram a vida dos números venezuelanos que vivem nas periferias do país.

Até o momento, os moradores da Cidade Socialista Hugo Chávez conseguem manter suas rotinas diárias, desfrutado não só de moradia gratuita, mas de outros benefícios como festas do bairro organizadas pelo Estado e viagens de taxi subsidiadas.

"(Aqui) deve ser uma das cidades mais bonitas de todo o mundo", disse Dallana Alvarado, que trabalha nas escolas locais e, de vez em quando, faz viagens ao exterior por meses.

Modelo. Funcionários do alto escalão do governo chavista costumam visitar os edifícios da cidade, quase sempre seguidos por câmeras das emissoras estatais. "Aqui está o sonho maravilhoso de Chávez, o sonho do socialismo territorial - um conceito extraordinário - posto em prática", afirmou o presidente Nicolas Maduro ao dirigir um ônibus na cidade, em 2015.

Cada um dos 144 edifícios, todos com acabamento idêntico, tem um movimentado cronograma de atividades. Jovens que estudam para ser cabeleireiro ofereciam cortes gratuitos recentemente, enquanto outros vizinhos decoravam um pátio. Crianças de aproximadamente três anos vestindo camisetas vermelhas vão, felizes, ao jardim de infância todas as manhãs, onde aprende leitura básica e recebem comida quente.

A cidade se mantém especial para o governo de Maduro também por outro motivo: 95% de seus eleitores apoiaram os socialistas na eleição legislativa de dezembro, número é duas vezes maior do que o partido governista teve nacionalmente, em média.

Veja a inauguração da comunidade pelo presidente Maduro em 2015:

A Venezuela enfrenta uma escassez crônica de moradia para os mais pobres estimada em milhões de unidades, o que fez os governantes chavistas prometessem a construção de mais casas populares em "cidades socialistas" - das quais a Cidade Chávez é a maior já inaugurada.

Alguns destes empreendimentos foram construídos por China, Bielo-Rússia ou outros países aliados de Maduro, mas apresentam inúmeros problemas de infraestrutura. Outros, porém, funcionam perfeitamente. Ao mesmo tempo em que os moradores da Cidade Socialista Hugo Chávez não terem nenhum tipo de obrigação com o governo venezuelano, muitos também não estão ascendendo para a classe média.

"Finalmente, depois de 25 anos, estamos descansando. Aqui, pudemos realmente dormir", disse Yomilady Segovia, que estudou até a quarta série, porque teve que trabalhar para ajudar a família, e passou as décadas seguintes vendendo café e empanadas num matadouro municipal.

Quando chegou na Cidade Chávez, o que ela mais gostava era de observar o horizonte pela janela de sua casa nova. "Aqui quando chove, nem percebemos. Podemos abrir a janela tranquila. Não era assim onde eu vivia ameaçada por enchentes e pelos rios que transbordavam". "A Cidade Chávez é o meu futuro e o futuro dos meus filhos."

Futuro. A forte crise econômica enfrentada pelo país tem causado efeitos também na cidade modelo elogiada pelos venezuelanos. Professores disseram que moradores de bairros vizinhos roubaram maçanetas dos banheiros do centro cultural da cidade - possivelmente para vendê-las. Além disso esses moradores também tentam comprar artigos como café, leite e azeito nos mercados de Cidade Chávez, onde não há filas e as prateleiras não estão vazias como no resto do país.

No posto de controle da entrada da cidade foram registradas manifestações de pessoas que sonham ser admitidas na cidade, incluindo dos trabalhadores que a ergueram a jovens mães de cidades vizinhas que não conseguem mais pagar seus aluguéis. 

"Vimos como a cidade foi construída durante quatro anos", disse Maryorie Celis, de 33 anos, mostrando um certificado obtido em 2014 do curso de responsabilidade cívica, necessário para morar nas casas subsidiadas pelo Estado. "Sei que tem uma chave disponível esperando por mim." / AP

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REUTERS/Jorge Silva
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