Mineradores relembram resgate da mina onde ficaram presos há 5 anos

Mineradores relembram resgate da mina onde ficaram presos há 5 anos

Grande parte dos trabalhadores atuam como transportadores, pedreiros, mecânicos e até mesmo mineradores

O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 08h18

COPIAPÓ, CHILE - Há cinco anos, a cidade de Copiapó, no deserto chileno do Atacama, comemorava diante da imprensa internacional o resgate dos 33 homens que passaram mais de dois meses presos em uma mina

Os 70 dias enclausurados a 700 metros de profundidade mudaram radical e definitivamente a vida dos mineradores. Alguns ainda sofrem as sequelas da dramática experiência, outros tentam superá-las.

"Se eu fosse rico, gastaria todo o dinheiro para voltar a ser como antes. A vida mudou muito, mas para puro sofrimento", relatou Víctor Zamora, o minerador "poeta", que durante a reclusão chegou a escrever 180 poemas, muitos dedicados ao filho, que tinha quatro anos na época, e à esposa, grávida de três meses.

Além do drama vivido em 2010, Zamora perdeu a casa em março deste ano em razão das inundações que atingiram o norte do país, mas evita se lamentar: "não gosto que me vejam derrotado", comentou.

Zamora confessou que gostaria de entrar novamente na mina San José, embora a exploração continue suspensa desde o resgate e ele siga tendo pesadelos por causa do incidente.

San José era considerada "a mina dos loucos" por ter recebido diversos alertas antes do acidente. A justificativa para aceitar trabalhar no local diante de todos os riscos era que "o pagamento era bom", segundo Zamora.

Em 2013, a promotoria de Atacama perdoou os donos da mina, Alejandro Bohn e Marcelo Kemeny, e fechou a investigação aberta por conta do acidente. Hoje os proprietários tentam vender o terreno de 1,5 mil hectares onde se encontra a jazida da qual eram extraídos ouro e cobre.

Os mineradores, no entanto, desejam um destino diferente para o local onde seus entes queridos conviveram durante semanas com as equipes de resgate e jornalistas que chegavam de todos os cantos do mundo.

"Queremos formar novamente o Acampamento Esperanza, com nossas mulheres, nossas famílias. Para contar o que elas passaram, a angústia, o frio, a fome. Não um teatro, mas a realidade", afirmou.

No dia 22 de agosto, quando a sonda chegou até o lugar onde estavam os mineradores, 17 dias desde o acidente, praticamente não existia comida ou água. Havia muito pó e monóxido de carbono.

Enquanto na superfície havia uma intensa operação de resgate, abaixo, os dias se passavam lentamente. Para a distração dos mineiros, a sonda de comunicação os enviou um miniprojetor e um lenço. Nos finais de semana, eles queriam assistir futebol, mas não chegavam a um acordo em relação às partidas.

Apesar da inédita operação, a maioria dos mineradores continua afetada pela catástrofe. Sem emprego fixo e marcados pela traumática experiência, muitos deles trabalham esporadicamente como transportadores, pedreiros, mecânicos ou mesmo mineradores.

Cinema. O filme "Os 33", que relata o incidente, não renderá nada aos mineradores até que se passem dois ou três anos e os produtores recuperem o investimento e repartam os lucros.

Para Víctor Zamora, o filme é uma montagem com muito glamour e pouco realismo, enquanto Luis Urzúa, o chefe de turno, acredita que o longa-metragem servirá para mostrar a milhões de espectadores o que foi vivido dentro da mina.

"Foi uma longa caminhada. Estamos lutando para sermos melhores. Hoje nós representamos todos os mineradores do Chile", enfatizou. /EFE

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