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AFP / Marwan IBRAHIM

Cinco anos de guerra levaram Síria à 'miséria', diz ONU

Para as Nações Unidas, país vive hoje o 'maior desastre humano do século 21'; além de 260 mil mortos, conflito deixou casas destruídas, crianças sem escolas e miséria generalizada

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Jamil Chade, Correspondente / Genebra,
O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2016 | 11h54

Prestes a completar cinco anos, a guerra na Síria "destruiu" um país, levou seu povo à "miséria" e abriu "a maior crise humana do século 21". O alerta é da ONU, que nesta terça-feira, 26, apresentou os novos dados do impacto social, econômico e humano do conflito que já matou 260 mil pessoas. As pessoas tiveram suas casas destruídas, as crianças não podem ir para a escola, não há hospitais suficientes e a miséria é generalizada.

Falando em Genebra, o representante da ONU na Síria, Yacoub El Hiilo, apresentou um raio-x de "uma sociedade em colapso". "Metade da população não vive mais em suas casas, 6,5 milhões foram obrigados a deixar suas regiões e 4,5 milhões de pessoas abandonaram o país", detalhou. 

Os dados são apresentados às vésperas da retomada de uma negociação de paz, programada para ocorrer a partir de sexta-feira em Genebra. "O sofrimento é imenso e os sírios começam a perder a esperança de que o mundo ainda se preocupa com eles", disse El Hiilo. "Trata-se de um grande fracasso político." 

As informações da ONU revelam como a guerra se traduziu para a sociedade: 67% da população síria hoje vive abaixo da linha da pobreza. Segundo a Unicef, o país é hoje "o lugar mais perigoso do mundo para ser uma criança"; dois milhões de menores estão fora das escolas e 50 mil professores abandonaram o país ou foram mortos. Apenas em 2016, 35 escolas foram bombardeadas. 

A realidade se contrasta com um cenário muito diferente antes da guerra. "90% das crianças estavam nas escolas. Hoje, perdemos o equivalente de duas décadas de educação e corremos o sério risco de perder toda uma geração", afirmou a Unicef. 

Doenças. Elisabeth Hoff, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Damasco, também aponta para a "destruição do sistema de saúde": 50% dos médicos sírios abandonaram o país, 60% dos hospitais estão fechados; 50% das clínicas não funcionam e, em algumas regiões, campanhas de vacinação não ocorrem desde 2013. "Muitas das doenças que haviam desaparecido, hoje voltaram", disse Elizabeth.  

A ONU também denuncia o fato de que as diferentes partes no conflito passaram a usar a fome como "arma de guerra". O resultado, segundo a entidade, é dramático. Na cidade de Madaya, por exemplo, os estoques de uma clínica local contavam com remédios e vacinas. Mas, sem comida por seis meses, as crianças não tinham força sequer para reagir a tratamentos. O local, com 40 mil habitantes, contava com apenas dois médicos. 

Recursos. O conflito também tem esgotado os recursos internacionais. Em 2015, a ONU pediu quase US$ 3 bilhões dos governos para socorrer os sírios, mas recebeu apenas US$ 1,4 bilhão. "O mundo só acordou para a Síria quando os refugiados chegaram até a Europa", acusou El Hiilo.

 

Ian Egeland, chefe do Conselho Norueguês de Refugiados, também faz seu alerta. "A Europa fez o erro estratégico de não dar dinheiro para lidar com o impacto humano da guerra e, agora, gasta muito mais para lidar com refugiados", disse.  

John Ging, Coordenador Humanitário da ONU,  insiste que não existe uma "solução humanitária para a guerra na Síria" e apenas um cessar-fogo pode frear o caos. "Vamos lamentar por décadas se perdermos essa oportunidade de negociar um acordo. Se ele fracassar, a situação vai ficar ainda pior e milhões de refugiados irão até a Europa", completou. 

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