AFP PHOTO / JUAN BARRETO
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Cinzas de Fidel passam por tumba de ‘Che’ Guevara

A caminho de Santiago de Cuba, restos de líder cubano foram levados ao memorial do guerrilheiro argentino em Santa Clara

Cláudia Trevisan - Enviada Especial / Santa Clara, Cuba , O Estado de S. Paulo

01 Dezembro 2016 | 10h54

À 0h35 desta quinta-feira, 1º, Fidel Castro e “Che” Guevara se reencontraram depois de uma separação de 51 anos. O cortejo com as cinzas do líder cubano passou a noite no memorial que guarda os restos mortais do revolucionário argentino em Santa Clara, que viu a última e decisiva batalha na luta dos guerrilheiros contra o regime de Fulgencio Batista.

A cidade de 250 mil habitantes no centro de Cuba é hoje um local de peregrinação de turistas atraídos pela imagem romântica de “Che”. Pensões e restaurantes privados se multiplicam no centro, com preços inalcançáveis para a maioria esmagadora dos cubanos. No La Casona de Jover, um prato de lagosta custa o equivalente a US$ 15 (R$ 50) – o salário mensal médio dos trabalhadores cubanos é de US$ 20. 

Médica como “Che”, a obstetra Miriam Jiménez Ramos se aposentou no ano passado e transformou sua residência em uma “casa particular”, na qual aluga quartos para turistas a uma diária de US$ 25, mais US$ 5 para o café da manhã. Sua filha Betsy abandonou a carreira de dentista para ajudar a mãe no negócio da família, onde costuma preparar o café da manhã. Com 66 anos, Miriam passou três períodos de dois anos trabalhando em missões de médicos no exterior, a mais recente das quais em Angola.

Localizada a 260 km de Havana, Santa Clara foi a primeira parada da caravana que leva as cinzas de Fidel a Santiago de Cuba, a cidade onde ele declarou a vitória da Revolução, em 1.º de janeiro de 1959. Milhares de cubanos se reuniram para se despedir de Fidel às margens da Carretera Central, a principal estrada do país, que corta a ilha de ponta a ponta. 

Em frente ao Memorial Che Guevara, em Santa Clara, centenas de pessoas aguardavam desde o início da noite para ver a chegada do grupo, prevista para a meia-noite. Em vez de passar em frente ao monumento, onde estava o público, a caravana entrou por uma porta lateral, frustrando os que esperaram durante horas. Apesar da decepção, ninguém reclamou ou protestou. 

Senín Yera Alonso, de 72 anos, estava entre os cubanos que se reuniram em frente ao memorial, para onde os restos mortais de “Che” foram levados em 1997 depois de serem exumados na Bolívia, onde o revolucionário havia sido morto 30 anos antes. Depois da vitória em Cuba, o argentino queria exportar a revolução a outros países. “Nós achávamos que tínhamos perdido o ‘Che’. Imagine a emoção que foi recebê-lo de volta”, disse Alonso.

Felipe Monteagudo, tinha 14 anos quando ocorreu a batalha de Santa Clara e se lembra da entrada na cidade dos revolucionários liderados pelo argentino. “As pessoas saíram às ruas e começaram a colocar seus carros nas estradas para dificultar a passagem das tropas de Batista”, disse.

Os moradores de Santa Clara se orgulham do evento crucial para a vitória da revolução: o descarrilamento, pela coluna de “Che”, de um trem que levava armas e munição destinadas a reforçar o Exército oficial. Os rebeldes se apoderaram do carregamento em 29 de dezembro de 1958. Três dias depois, Batista fugiu de Cuba e Fidel declarou a vitória da revolução. 

Uma das atrações turísticas da cidade, o trem é mantido no local onde descarrilou, transformado em um museu no qual a entrada é de US$ 1.

“Santa Clara é estratégica porque está no centro do país. Com a queda da cidade, a tirania de Batista perdeu a possibilidade de manter-se no poder”, disse José Reyes Alvarez, de 65 anos, que trabalha com turismo e aguardava as cinzas de Fidel com o amigo Orlando Machado Cardenás, de 76 anos.

Cubanos que vivem nas vilas e pequenas cidades do interior foram levados em pé na carroceria de caminhões e tratores para ficar às margens das estradas nas quais as cinzas de Fidel passariam. 

Operária de uma processadora de tabaco, Adela Giménez Roldán chegou às 4 horas em um ponto da Carretera Central próximo da cidade de Cabaiguán, na Província de Santo Espírito. “Todo mundo da minha empresa veio”, disse Roldán, enquanto aguardava um caminhão para voltar a sua cidade.

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