Marcelino Vazquez Hernandez/ACN via AP
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Cinzas de Fidel são depositadas em Santiago de Cuba

Raúl Castro fez última homenagem ao irmão mais velho; mausoléu perto do túmulo de José Martí tem apenas uma placa com o nome do líder da Revolução Cubana

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / SANTIAGO DE CUBA, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 18h28
Atualizado 04 Dezembro 2016 | 19h55

SANTIAGO DE CUBA - Depois de um luto de nove dias, as cinzas de Fidel Castro foram depositadas neste domingo, 4, no Cemitério Santa Ifigênia, em Santiago, em uma cerimônia com poucos convidados e sem cobertura da imprensa estrangeira. A urna foi colocada perto do túmulo de José Martí, o ideólogo da independência da ilha no século 19 e cultuado como herói nacional.

O sepultamento ocorreu ao fim de nove dias de homenagem ao líder que comandou Cuba por quase cinco décadas. A cerimônia foi curta e sóbria. As cinzas foram depositadas no centro de uma grande pedra oval, na qual foi colocada uma placa em mármore verde apenas com a palavra “Fidel”.

Na cerimônia estavam presentes os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, da Bolívia, Evo Morales, e os ex-presidentes brasileiros Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva.

"Não houve discurso, foi muito sóbrio, só as cinzas foram enterradas ante a família, membros do governo e funcionários", disse à AFP a número três do governo francês, a ministra do Meio Ambiente Segolene Royal, uma das convidadas estrangeiras.

Fidel Castro, que morreu no dia 25 de novembro aos 90 anos, foi enterrado próximo ao mausoléu do herói independentista cubano José Martí. Salvas de canhões soaram em Havana no início do enterro.

Santiago de Cuba é a cidade dos avós de Fidel. Foi lá que ele passou a infância e adolescência, estudando em colégios destinados à elite cubana, e empreendeu o primeiro ato armado contra o regime de Fulgencio Batista: a fracassada tentativa de tomada do Quartel de Moncada, pela qual cumpriu 22 meses de prisão.

A cidade foi o ponto final da caravana de 1.000 km com as cinzas de Fidel que saiu de Havana na quarta-feira. “Vou continuar a revolução socialista em Cuba”, disse Raúl Castro.

Caravana. Assim terminou uma semana de grandes tributos ao ex-guerrilheiro que montou um regime comunista a menos de 200 km dos EUA e foi implacável com os opositores. Ao grito de "Eu sou Fidel", milhões de cubanos prestaram homenagem ao seu líder em praças e ruas ou nos acostamentos das estradas por onde passou a caravana com as cinzas, que percorreu a ilha de Havana a Santiago.

A partir de agora, Cuba vira uma nova página sem Fidel, que deixa um legado que provocou ódios e amores. Muitos lembram dele como o homem que universalizou a saúde e a educação gratuitas na ilha, mas outros o descrevem como o ditador que enviou à prisão ou ao exílio qualquer um que se opusesse a ele.

"O luto termina, o que não termina é o que (Fidel) disse, o que nos ensinou. A partir de amanhã é outra Cuba, mas que segue igual", disse José Luis Soria, de 42 anos.

Muitos cubanos acreditam que a ilha manterá o rumo traçado por Fidel e seu irmão Raúl prometeu continuar seguindo. "Todos os cubanos têm confiança em Raúl. E depois dele há outros", afirmou Daniela Lozano Diaz, uma dona de casa de 52 anos, que diz ter Fidel "no coração".

Mudanças. Raúl Castro, que governa desde 2007, quando Fidel ficou doente, estará à frente da ilha até fevereiro de 2018, mas permanecerá com seu cargo máximo no Partido Comunista de Cuba. No sábado, durante o último ato de massas em memória do líder histórico, o presidente cubano jurou que defenderá a revolução socialista. "Diante dos restos de Fidel juramos defender a pátria e o socialismo", proclamou emocionado o líder de 85 anos.

Sem se afastar do regime de partido único, Raúl está empenhado em uma série de reformas para oxigenar o modelo de cunho soviético enquanto avança no processo de aproximação com os EUA iniciado em dezembro de 2015. A cautelosa e lenta abertura permitiu que os cubanos trabalhem por conta própria em algumas atividades, viajem para fora do país livremente (com exceção dos médicos), e mais investimento estrangeiro entre no país.

"A curto prazo, provavelmente não acontecerão muitas mudanças em Cuba após a morte de Fidel. Haverá muita cautela, especialmente com o próximo governo de (Donald) Trump em Washington", opinou Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano em Washington.

Sem Fidel, "Raúl terá mais margem de manobra para tomar decisões. Não precisará mais da aprovação de seu irmão mais velho", disse. 

Imediatamente, deverá enfrentar a desaceleração da economia, atingida em grande parte pela crise na Venezuela, sua maior aliada. "No momento em que Raúl passar a tocha à próxima geração, é muito importante que acelerem as reformas porque o caminho econômico atual é insustentável", afirmou Ted Piccone, especialista em América Latina do Brookings Institution.

No sábado, os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, da Bolívia, Evo Morales, e da Nicarágua, Daniel Ortega, acompanharam o último ato público em homenagem ao líder da Revolução cubana. Também participaram os ex-presidentes brasileiros Lula e Dilma Rousseff. /AFP

 

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