Shenyang Municipal Information Office via AP
Shenyang Municipal Information Office via AP

Cinzas do dissidente chinês Liu Xiaobo foram jogadas ao mar

Dispersão das cinzas do Nobel da Paz implica que ele não terá sepultura onde parentes, amigos e admiradores possam prestar homenagem

O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 15h59

SHENYANG, CHINA - As cinzas do Prêmio Nobel da Paz e dissidente chinês Liu Xiaobo foram jogadas ao mar neste sábado, 15, horas depois que seu corpo foi cremado.

Seu irmão mais velho, Liu Xiaoguang, fez este anúncio durante entrevista coletiva organizada pelas autoridades, que controlararam os funerais de perto.

O corpo do dissidente foi cremado em uma cerimônia simples, com a presença da viúva e de amigos, informaram as autoridades chinesas.

Liu Xiaobo foi cremado "conforme a vontade dos membros de sua família" em Shenyang , nordeste da China, onde o dissidente estava internado até sua morte, na quinta-feira, anunciaram as autoridades em entrevista coletiva.

O governo chinês divulgou fotos mostrando a viúva, a poetisa Liu Xia, ao lado de seu irmão e do irmão de Liu Xiaobo, rodeados de amigos, diante do corpo do dissidente cercado de flores brancas.

A dispersão das cinzas do Nobel da Paz implica que ele não terá sepultura onde parentes, amigos e admiradores possam prestar homenagem.

"As autoridades temem que se alguém tão emblemático como Liu Xiaobo tiver um túmulo, ele se transformará em local de peregrinação para seus simpatizantes", declarou à agência France-Presse Ye Du, dissidente ligado à família.

O artista e dissidente chinês Ai Weiwei, que vive em Berlim, tuitou uma foto do funeral, definindo a cerimônia como "repugnante" e "uma violação do respeito devido aos mortos".

Mas Liu Xiaoguang defendeu esta opção na entrevista. Ele defendeu o sistema socialista, agradeceu às autoridades por sua  humanidade e colaboração.

Não é possível verificar a sinceridade dessas palavras, pois as autoridades têm exercido desde o início do drama um forte controle das informações vinculadas a Liu e pessoas próximas a ele. A imprensa não pôde fazer perguntas ao irmão do dissidente ao final da declaração.

Detido há mais de oito anos por subversão, o opositor político faleceu aos 61 anos, vítima de um câncer de fígado em estágio terminal. Foi posto em liberdade condicional no Hospital Universitário de Shenyang, onde estava recebendo cuidados. 

Pequim se recusou a autorizar sua viagem para que fosse tratado fora do país.

Liu é o primeiro Nobel da Paz que morre estando preso desde um pacifista alemão detido pelos nazistas e morto em 1938. O Comitê Nobel acusou Pequim de ter "uma grande responsabilidade" por sua morte.

Depois de sua morte, os olhares se voltam para a sua mulher, Liu Xia, em prisão domiciliar desde 2010. 

A ex-poetisa e fotógrafa foi autorizada a visitar seu marido no hospital antes de sua morte, mas seus contatos com o mundo exterior  são muito restritos.

"Até onde sei, a senhora Liu Xia é livre", afirmou Zhang Qingyang, dirigente da municipalidade de Shenyang, sem dar mais detalhes.

Essa declaração foi questionada por pessoas próximas, que continuam sem ter contato com Liu Xia.

Em Hong Kong, milhares de pessoas fizeram uma manifestação com velas para prestar homenagem a Liu.

Desde a chegada ao poder do presidente Xi Jinping, no final de 2012, a repressão política na China aumentou. Além de reprimir defensores dos direitos Humanos, o governo também perseguiu seus advogados, prendendo dezenas de juristas e militantes. / AFP 

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