REUTERS/Francois Lenoir
REUTERS/Francois Lenoir

Coalizão estuda mudar tática contra Madri

Divergências internas e força de governo espanhol podem fazer independentistas repensarem estratégia

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 23h44

A inédita intervenção do governo da Espanha decretada há 50 dias pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy – ação que resultou na destituição do governo e na dissolução do Parlamento – foi desautorizada pelas urnas na Catalunha. Mesmo vitoriosos na eleição, os partidos independentistas podem não adotar de novo a estratégia que levou à maior crise política espanhola desde a redemocratização do país, entre 1978 e 1981. 

Desbancado pela ação de Madri, o grupo secessionista deve refazer a coalizão que governava desde 2015, mas pode optar pela flexibilidade e pela reabertura de negociações para reformas constitucionais.

+ Tribunal Constitucional da Espanha suspende declaração de independência da Catalunha

A política a ser seguida pelos independentistas dependerá de quem será o governador da Catalunha a ser escolhido até 23 de janeiro pelo Parlamento. Processado pela Justiça por crimes de rebelião e desvio de verbas públicas e hoje exilado em Bruxelas, o ex-governador Carles Puigdemont, deposto em novembro, conquistou o segundo lugar e já se apresenta como o “governo legítimo da Catalunha”. Mas ninguém hoje pode afirmar que Puigdemont terá o direito de voltar sem ser processado e até preso.

A hipótese mais forte na noite de ontem era a reedição da coalizão tripartite que vigorava até novembro, sob a liderança de Puigdemont. Essa aliança era formada pelo partido de centro-direita Juntos pela Catalunha (JuntsxCat), que ontem teve 21,7% dos votos válidos, com uma bancada de 34 deputados; pelo partido Esquerda Republicana Catalã (ERC), que somou 21,4% dos votos e conquistou 32 assentos; e pela Candidatura de União Popular (CUP), formação de extrema esquerda que defende a independência unilateral.

A questão é que a última legenda, a mais radical do movimento independentista, perdeu força na eleição de ontem. Com 4,5% dos votos, a CUP elegeu apenas 4 deputados, frente aos 10 nas últimas eleições. Seu poder, ainda assim, continuará decisivo. Com 66 assentos no Parlamento, Juntos por Catalunha e ERC precisam dos anticapitalistas para chegar ao mínimo de 68 deputados, que lhes conferirá a maioria dos votos. Sem apoio da CUP, a coalizão não governará. 

Ruas. Entre militantes independentistas, a mobilização eleitoral foi forte, mas a festa no terreno foi contida no final da noite, até pela indefinição sobre que política será adotada daqui para a frente. Na Praça Catalunha, que costumava ficar tomada pela multidão, não houve mobilização popular. Parte da desmotivação se justifica pela situação dos principais líderes independentistas, processados e presos pela Justiça ou vivendo no exterior. 

“Há políticos que estão no cárcere por defender suas ideias, suas convicções. E se a repressão do Estado não for reduzida, poderemos viver novos ciclos de tensão”, advertiu Bernard Tresserras, de 27 anos, militante do ERC, que lamentou a falta de seu líder político na campanha. “Será muito importante saber qual será a resposta do Estado espanhol diante da vitória do independentismo. Se o Estado espanhol não fizer nenhum movimento político para devolver a estabilidade à Catalunha, estaremos sujeitos ao retorno da instabilidade.”

Entre personalidades políticas da Espanha e da Catalunha, a confusão também reina. Jordi Pujol, ex-governador da região, limitou-se a dizer ontem que espera que o pleito “produza uma situação política que permita tirar o país da crise e levá-lo adiante”. Para o advogado Gonzalo Boye, professor de direito penal condenado pela Justiça no passado por relações com o grupo separatista basco ETA, a vitória dos secessionistas na Catalunha é sobretudo a desautorização do primeiro-ministro Mariano Rajoy. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.