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Colombianos voltam às urnas para definir líder e futuro do diálogo de paz

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL / BOGOTÁ - O Estado de S. Paulo

15 Junho 2014 | 02h 04

Segundo turno deve dar ao país a indicação sobre se os eleitores querem seguir adiante com as negociações entre o governo e os guerrilheiros das Farc

Dois afilhados políticos do ex-presidente Álvaro Uribe disputam hoje o segundo turno das eleições na Colômbia sem chances de conquistar uma ampla maioria dos votos. Quem quer que vença - o atual presidente Juan Manuel Santos ou seu adversário Óscar Iván Zuluaga - obterá uma margem estreita de aprovação.

As propostas parecidas dos dois candidatos transformam a eleição presidencial colombiana em um referendo sobre o único tópico de clara divergência: o processo de paz em curso com as guerrilhas.

No primeiro turno, em 25 de maio, Zuluaga obteve 29,3% dos votos, graças especialmente à atuação de seu padrinho Uribe, o idealizador de sua candidatura pelo partido Unidade Nacional, de direita. Afastado de Uribe desde o início de seu governo, Santos, com 25,7% dos votos, foi surpreendido com o segundo lugar.

O processo eleitoral na Colômbia termina qualificado como o mais sujo da história do país, com acusações recíprocas e insultos divulgados por meio das redes sociais, rádio e televisão. Zuluaga acusou o estrategista da campanha de Santos de receber dinheiro de narcotraficantes. Santos acusou Zuluaga de ter contratado um hacker para obter informações privilegiadas sobre o andamento das negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Isso resultou no elevado porcentual de abstenção no primeiro turno, de 41%. Na segunda etapa, dizem os especialistas, será maior. "Calculo em 65%", afirmou o senador eleito Antonio Navarro Wolff, do partido de esquerda Aliança Verde. "Nunca houve uma campanha tão suja como essa. Foi muito atípica, sem debate substancial, o que desencantou os eleitores", opinou a cientista política Patricia Muñoz, da Universidade Javeriana.

Desde o dia 11, quando Zuluaga cancelou sua participação nos três últimos debates e em atos de campanha, dizendo estar com laringite, coube a Uribe, ao candidato a vice-presidente, Carlos Holmes Trujillo, e à mulher de Zuluaga, Martha Martínez, compensar o atraso no interior do país. Santos redobrou sua exposição pública.

Desde o primeiro turno, a disputa entre os candidatos se concentrou em como lidar com as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN), a outra importante guerrilha em ação no país. Uribe lançara a candidatura de Santos com certeza de que ele manteria a guerra contra as Farc e o ELN. Mas o atual presidente preferiu a negociação e rompeu com Uribe. Desconhecido do público e desprovido de experiência eleitoral, Zuluaga tornou-se o novo afilhado de Uribe.

Já mergulhado em conversas com as Farc, Santos insistiu que tem em suas mãos o único meio de desarmar as guerrilhas e atacou Zuluaga por querer a preservação da guerra interna. O opositor afirmou que pararia a negociação para reavaliá-la, defendeu que os guerrilheiros teriam de ser presos e perder seus direitos políticos e condenou as "benesses" oferecidas pelo presidente às Farc. Na última semana, Santos, aprofundou ainda mais a diferença ao anunciar que as Farc reconhecerão suas vítimas e o ELN concordara em aderir à negociação.

A aparente vantagem de Santos nos últimos dias da campanha, com Zuluaga recolhido pela enfermidade, não chega a lhe dar sinal de vitória. O apoio financeiro e a logística serão cruciais hoje, quando ambos os lados terão de convencer seus eleitores, os 5 mil que votaram em outros candidatos no primeiro turno e os que se abstiveram a ir a um dos 10,5 mil centros de votação. Santos terá de se esforçar, sobretudo, em Bogotá e na região central do país, onde foi derrotado no primeiro turno. Zuluaga terá de se empenhar nas costas do Pacífico e do Caribe. Na Colômbia, os partidos tradicionalmente buscam os eleitores para levá-los aos centros de votação.

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