Com espaço ganho, católicos conseguem até criticar regime

Cenário: William Booth / W.Post

O Estado de S.Paulo

29 Março 2012 | 03h02

Na paróquia de Jesus de Monte, até os ateus vão à igreja. Para participar de aulas grátis de computação.

Religiosos leigos e voluntários da paróquia lançaram um ambicioso programa para chegar à comunidade, oferecendo serviços como café da manhã para os idosos e remédios de graça - o que era responsabilidade exclusiva do Estado. As aulas noturnas de administração estão lotadas de jovens. Mais de 150 alunos - a maior parte nem é católica - estão matriculados em cursos de contabilidade, gerenciamento de estoques e marketing. A Igreja oferece um MBA, em parceria com uma universidade da Espanha, e recentemente reabriu seu seminário.

Suas revistas nacionais trazem artigos cujas análises francas são surpreendentes. Uma edição recente elogiava as reformas econômicas de Raúl Castro, mas afirmava sem rodeios que "não são suficientes para resolver os problemas sociais e econômicos que se acumularam em 52 anos de socialismo". Muito distantes da imagem popular da repressão religiosa promovida por exilados e políticos cubanos em Miami, os paroquianos dizem que não enfrentam discriminação. Pelo contrário, parece que as instituições religiosas - especialmente as revistas - têm assegurada a liberdade para fazer críticas, ao passo que outras ainda têm negado esse direito.

Um dos paroquianos disse se lembrar dos anos 70 e 80, época em que frequentar a Igreja não só era desencorajado pelo governo. "Os próprios vizinhos o delatavam à polícia." Hoje, Santiago Martínez, um dos padres da Igreja de São João Bosco, diz que até membros do poderoso Partido Comunista assistem às missas e também funcionários do governo. Uma geração antes, seriam contrarrevolucionários. "Realizamos 25 batizados por mês", comemora Martínez.

Igreja e Estado parecem estar trabalhando juntos. O governo tomou a decisão inusitada de decretar feriado ontem, quando o papa celebrou a missa na Praça da Revolução em Havana. Os escritórios do Partido Comunista e as empresas estatais incentivaram - até mesmo obrigaram - os trabalhadores a participar. A cobertura da visita do papa, e suas homilias, foram transmitidas pela rádio e TV estatais. "Raúl Castro deu à Igreja um papel de mediadora junto a outros setores da sociedade cubana", disse Enrique López Oliva, professor de história religiosa na Universidade de Havana. "O problema é que a Igreja está assumindo um papel similar a um partido político alternativo, o que não existe em Cuba." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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