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Internacional

Donald Trump

Com favoritismo de Trump, partido chega à Superterça em crise existencial

Bilionário chega à jornada de hoje, quando se define o maior número de delegados às convenções partidárias, na liderança das pesquisas e membros de setores tradicionais do Partido Republicano já admitem até votação na democrata Hillary

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Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON,
O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 07h58

O outsider Donald Trump chega hoje como líder absoluto à chamada Superterça, quando se define o maior número de delegados às convenções partidárias. A provável vitória do bilionário pode levar à implosão do Partido Republicano, do qual integrantes da ala tradicional começam a discutir alternativas à nomeação, entre as quais está o voto na adversária democrata Hillary Clinton.

“Há uma grande parcela do partido que nunca, sob nenhuma circunstância, apoiará Donald Trump”, disse ao Estado Tony Fratto, um republicano que trabalhou no governo de George W. Bush e é sócio da empresa de consultoria Hamilton Places Strategy, com sede em Washington. Segundo Fratto, esse grupo, no qual se inclui, terá três opções caso o bilionário vença a disputa interna da legenda: não participar da eleição de novembro, apoiar o candidato de um terceiro partido (que ainda não existe) ou votar em Hillary.

O senador republicano de Nebraska Ben Sasse declarou no domingo que não votará em Trump e disse que os conservadores precisam de uma terceira opção. “Um candidato presidencial que se gaba do que fará em seu ‘reinado’ e se recusa a condenar a KKK (Ku Klux Klan) não pode liderar o movimento conservador na América”, escreveu Sasse.

Defensor da nomeação do senador Marco Rubio, Fratto acredita que a corrida pela indicação do candidato republicano à presidência não será encerrada hoje, quando eleitores do partido em 11 Estados irão às urnas. Trump lidera as pesquisas em oito deles. Levantamento da CNN sobre intenção de voto em âmbito nacional coloca o bilionário na liderança com 49%, mais que a soma de todos os adversários. Os democratas terão prévias em 11 Estados e no território de Samoa Americana, e Hillary chega fortalecida pela vitória na Carolina do Sul no sábado.

A aposta de Fratto e dos aliados de Rubio é que Trump não conseguirá o número suficiente de votos para ganhar a convenção do partido, em julho, no primeiro turno. Para vencer, ele precisa de 1.237 dos 2.340 delegados. Por enquanto, ele tem 82. Hoje serão escolhidos mais 595. Caso o bilionário não consiga o número mágico, a decisão final irá para a convenção partidária, onde ele poderia ser desafiado por um dos adversários.

Mas a Superterça também pode se tornar uma “SuperTrump” e registrar uma vitória avassaladora do candidato insurgente. Isso aumentaria ainda mais o favoritismo de Trump e daria impulso a seu nome nas primárias que serão realizadas até o dia 15. A mais importante delas será a da Flórida, terceiro Estado mais populoso do país e base política de Rubio.

Trump foi atacado ontem por adversários republicanos e outros membros do partido por ter-se recusado a rejeitar o apoio do supremacista branco David Duke em entrevista à CNN no domingo – o que ele acabou fazendo mais tarde por meio do Twitter (mais informações na página A9). Mitt Romney, candidato republicano à presidência em 2012, afirmou que a resposta do bilionário o desqualifica para representar o partido. “Sua proximidade com a intolerância repugnante não condiz com o caráter da América”, postou Romney no Twitter.

A governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley, que apoia a candidatura de Rubio, também criticou Trump pela resistência em condenar a Ku Klux Klan. No ano passado, um supremacista branca matou nove pessoas a tiros em uma igreja de Charleston, no Estado administrado por Nikki. “Não vou descansar enquanto nós lutamos contra um homem que prefere não repudiar a KKK, que não faz parte de nosso partido, que não é quem queremos como presidente. Nós não vamos permitir isso em nosso país”, declarou.

A possibilidade de o bilionário vir a ser o candidato da legenda já empurra conservadores para Hillary. Na quinta-feira, Robert Kagan, um acadêmico que trabalhou no governo Ronald Reagan, tido como “neoconservador”, anunciou em um artigo no Washington Post que votará na candidata democrata. “Para este ex-republicano, e talvez para muitos outros, a única escolha será votar em Hillary”, escreveu.

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