Como combater uma guerra ideológica

Para enfrentar o Estado Islâmico é necessário apoiar os bons muçulmanos para que eles travem essa luta dentro do Islã

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 Março 2015 | 02h01

Atualmente, Washington vem manifestando entusiasmo por uma guerra ideológica: não entre democratas e republicanos - que é algo antigo -, mas entre os americanos e o Islã radical. Muitas pessoas que nas últimas semanas têm insistido em rotular os terroristas jihadistas de "islâmicos" agora demandam que lutemos contra eles na frente ideológica. É o campo certo, mas seria uma luta diferente das guerras de ideias do passado e poderia exigir algumas recomendações de ação surpreendentes.

Nossa imagem da guerra ideológica vem da Guerra Fria, outra disputa titânica entre duas visões de mundo opostas. A Guerra Fria, porém, foi muito difusa e intensa, pois as ideias de cada lado eram potencialmente atraentes para todos, em qualquer parte do mundo. Comunismo e capitalismo eram ideologias seculares, cada uma tentando atrair os "indecisos" para seu campo.

Hoje é difícil lembrar que durante décadas dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo foram fortemente atraídas pelo comunismo.

Alguns dos maiores intelectuais do Ocidente escreveram com simpatia sobre a tese comunista. Na década de 30, quando a democracia parecia desmoronar e o fascismo estava em ascensão, muitos achavam que o socialismo era a solução para os problemas do mundo. Nas primeiras eleições após a 2.ª Guerra, os partidos comunistas obtiveram um quarto e um quinto dos votos na França e na Itália, respectivamente, levando observadores a temerem que esses países acabassem se tornando comunistas. Em todo o mundo em desenvolvimento, o apelo do socialismo e do comunismo era real e forte.

O Islã radical, ao contrário, é severamente limitado em seu apelo global. Quase por definição ele é inoportuno para todos os não muçulmanos. Que cristão gostaria da imposição da lei islâmica? Mesmo no mundo muçulmano, o Islã radical não tem muita repercussão. Na metade do mundo que realiza eleições, incluindo Indonésia, Malásia, Índia, Turquia, Iraque e até Paquistão, tais ideologias não costumam arrecadar muitos votos. O sucesso eleitoral da Irmandade Muçulmana, no Egito, foi uma exceção, mas se deveu a razões não relacionadas à ideologia islâmica - tão radical quanto a ditadura no Egito.

Como as ideias em jogo são potencialmente sedutoras apenas para os muçulmanos, a guerra ideológica é, na verdade, uma luta dentro do Islã. É uma guerra cultural que deve ser travada pelos muçulmanos. Se estrangeiros, como os EUA, quiserem participar, devem ouvir e apoiar os muçulmanos que travam o bom combate. Um deles é o rei Abdullah, da Jordânia, que entrevistei em Amã.

O rei apoia a tendência do presidente Barack Obama de não descrever o Estado Islâmico como "islâmico", pois o grupo "busca a legitimidade que não tem dentro do Islã". Mas, na verdade, é irrelevante a maneira como Obama qualifica esses terroristas. O que importa é o que o rei e outros cidadãos na Jordânia e em todo o mundo árabe os qualificam. E eles decidiram não qualificar o movimento terrorista de Estado Islâmico. Em vez disso, eles o chamam de "Daesh", um acrônimo pejorativo da palavra árabe "daes", que significa "esmagar com os pés". O termo que o rei Abdullah prefere usar ao se referir aos jihadistas é "khawarij", que em inglês pode ser traduzido como "criminosos" ou "renegados" do Islã.

"Não é uma luta ocidental", disse o rei. "Este é um combate dentro do Islã, onde todos se unem contra os fora da lei". Naturalmente, ele deseja o apoio e o envolvimento internacionais, mas se mostra cauteloso com relação às tropas ocidentais. A Jordânia está na linha de frente desta batalha, mas outros países, do Iraque ao Egito, finalmente vêm se unindo e não só no campo de batalha. O diretor da Al-Azhar, do Cairo, a mais prestigiada universidade do Islã sunita, denunciou os "grupos violentos extremistas" que têm "interpretações pervertidas" do Islã.

Eles sabem que o inimigo deseja que o governo Obama entre na guerra e com força total. A ironia é que, quando compreendemos a ideologia que o EI tem como base, isso nos leva na direção oposta. Graeme Wood levanta, em The Atlantic, a perspectiva de um maior envolvimento militar americano contra o grupo.

"O maior proponente de uma invasão americana é o próprio EI", escreveu. "Os vídeos provocativos foram gravados claramente para atrair os EUA para a luta. Uma invasão será uma enorme vitória de propaganda dos jihadistas em todo o mundo". Wood aconselha a contenção, ataques aéreos seletivos e apoio aos muçulmanos que estão empenhados em dissuadir seus semelhantes de caírem na armadilha do Islã radical.

Em outras palavras combater uma guerra ideológica contra o EI, na verdade, sugere uma estratégia sofisticada que envolve, no caso dos EUA, a contenção militar e uma cooperação política com os árabes. Eu me pergunto se os clamores por esse tipo de combate ainda teriam apoio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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