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Como julgaremos Obama?

Talvez leve tempo para os EUA e o mundo compreenderem de fato o que significou a presidência que vai acabando

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Erin Aubry Kaplan,
Los Angeles Times

06 Fevereiro 2016 | 12h03

Agora que Barack Obama está a caminho de encerrar seu mandato – o caucus de Iowa foi o prelúdio oficial de uma nova era política – o consenso que vem se formando é de que, embora ele possa ser qualificado como um presidente bem sucedido, não foi um revolucionário. Não cumpriu sua promessa inicial de mudança.

A mudança esperada não era somente política, mas também espiritual. A evidência mais clara disso é que, desde o início, Obama sempre significou algo diferente para os negros do que significa para os demais.

Obama sempre me pareceu um indivíduo solitário – uma eminente figura histórica que era, ao mesmo tempo, apenas mais um homem negro tentando encontrar seu caminho num ambiente branco hostil. Nessa caminhada, ele seguiu a tradição do moderno herói popular de Jackie Robinson e outros “primeiros” brancos talentosos cuja principal tarefa, além de jogar beisebol ou ser presidente, foi superar dificuldades avassaladoras e conquistar aceitação diante da adversidade racial.

Muito do que chamamos de polarização na era Obama, na verdade, é apenas prova dessa velha dinâmica. Essas divisões se estendem até a base de uma hierarquia social e racial americana que tem perdurado há 400 anos. A mídia ignora consistentemente isso porque foi ensinada a não nomear raça (ou seu corolário, o racismo) como fator de alguma coisa. Como Obama será julgado, o que ele no final significará depende menos das qualidades intrínsecas e do seu currículo do que em que base os americanos o estão julgando.

Com Obama, nós nos preparamos para a resistência e os contragolpes que sucedem quando qualquer negro tenta afirmar sua autoridade – ou mesmo competência – num ambiente onde poucos ou nenhum negro conseguiu se afirmar antes. Nós imaginamos que o primeiro da magnitude de Obama realmente seria injuriado e estávamos certos. Uma batalha repugnante foi travada nas escolas e nas mesas dos almoços e repentinamente ocorreu no espaço público mais exclusivo de todos, a Casa Branca.

A batalha tem sido metaforicamente sangrenta e muito dolorosa de assistir. As vitórias políticas de Obama, suas elocuções brilhantes, sua inteligência manifesta, sua calma, jamais conseguiram contrabalançar o escárnio aberto e sem fim da facção do Tea Party que tem determinado a posição dos republicanos e de boa parte da opinião pública. Essa facção influente não critica simplesmente Obama, mas deseja humilhá-lo. É algo pessoal.

Ser negro tem de ser compreendido como uma experiência coletiva e apesar das conversas no início sobre até que ponto ele era negro ou não, Obama reivindicou seu lugar na tribo. Esse lugar é parte do que o tornou um herói para os negros. Ele é nós. Gostemos dele ou não, Obama assumiu a tarefa de representar e refletir as ambições dos negros, nossas forças, nossa contenção e, sim, nossas incertezas e fracassos.

Durante oito anos, os negros americanos acompanharam os esforços de Obama de perto, de uma maneira que os brancos não poderia

m. Nunca acreditamos que seria um revolucionário. Se Obama for lembrado como um presidente que melhorou os números da nação e rompeu o bloqueio da assistência média, bastará esse triunfo. O real mecanismo da transformação é o amor, a solução derradeira para nossas crises raciais defendida pelos antepassados de Obama, Martin Luther King Jr. e James Baldwin. Mas para aceitarmos isto será preciso esperar por outra era. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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