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REUTERS/Chris Keane

Comunidade cubana na Flórida se divide sobre apoio a senador

Comício de Rubio em reduto cubano não atrai tanta gente; maioria dos descendentes defende reaproximação com a ilha

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Cláudia Trevisan, enviada especial / HIALEAH, EUA,
O Estado de S. Paulo

13 Março 2016 | 05h00

HIALEAH, EUA - Os discursos intercalam inglês e espanhol e os sobrenomes dos oradores evidenciam sua origem cubana: González, Muñoz, Martinez, Hernandez. Entre eles, está Tomás Regalado, o prefeito republicano de Miami, que nasceu em Cuba em 1947 e chegou aos EUA quando tinha 14 anos. Todos preparam a plateia para a entrada no palco de Marco Rubio, o filho de imigrantes da ilha caribenha, que disputa a candidatura do Partido Republicano à Casa Branca.

Em Hialeah, cidade com a maior concentração de cubanos dos EUA, o senador é chamado de Marco e muitos de seus eleitores se referem a ele como “muchacho” – “garoto” ou “rapaz”, em português. Aos 44 anos, Rubio é o mais jovem entre todos os aspirantes à sucessão do presidente Barack Obama. O segundo na lista é o também cubano-americano Ted Cruz, que parece ter uma década a mais que seu colega de Senado, apesar de ter completado 45 anos em dezembro.

“Marco é um dos nossos. Sofreu como nós sofremos e passou pelo que nós passamos”, disse ao Estado Gonzalo Perez, que saiu de Cuba em 1992. Mas, à diferença de muitos cubano-americanos de Miami, os pais do senador eleito em 2010 deixaram Cuba por razões econômicas e não políticas. Ambos aportaram na costa americana em 1956, antes da chegada de Fidel Castro ao poder.

Ainda assim, Rubio vinculou sua trajetória aos que fugiram da ilha por discordar dos rumos impostos pelos comunistas que tomaram o poder em 1959. O anúncio de sua pretensão de disputar a presidência foi feito na Torre da Liberdade, edifício onde era feita a triagem dos refugiados que chegaram da ilha entre 1962 e 1974. Transformado em museu, o prédio construído em 1925 tem nas laterais as bandeiras dos EUA e de Cuba. 

Mas o comício em Hialeah tinha sinais preocupantes para Rubio. Realizado em um estádio com capacidade para milhares de pessoas, ele atraiu centenas e foi relegado a um espaço lateral. A plateia era em sua maioria grisalha, ainda que houvesse jovens, como Antonio Figueroa, um corretor de imóveis de 22 anos. “Ele é de longe o mais preparado em política externa”, ressaltou.

O entusiasmo com o senador entre os cubano-americanos também é afetado por mudanças na comunidade em relação a Havana. Pesquisa da Universidade Internacional da Flórida mostrou que quase 70% dos cubanos ou descendentes eram a favor do restabelecimento de relações diplomáticas com Havana. Depois de 54 anos de isolamento, a Casa Branca anunciou em dezembro de 2014 a decisão de reatar os laços com Cuba.

Rubio está entre os mais estridentes opositores da medida e promete reverter os passos dados pelo atual presidente. Angel Santana, que saiu de Cuba em 1980, votará na democrata Hillary Clinton nas primárias de terça-feira por acreditar que ela dará continuidade às políticas de Obama. “A mudança abrirá as portas para o povo cubano. O embargo econômico só prejudica a população da ilha”, disse ao Estado em um parque da Pequena Havana.

Gabriel Perez, de 80 anos, votará no democrata Bernie Sanders, rival de Hillary. “O reatamento com Cuba é algo lógico, que deveria ter sido feito há 40 anos”, observou Perez, que nunca voltou à ilha desde que chegou aos EUA, em 1961.

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