CRISTIANO DIAS/ESTADAO
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Comunistas celebram no berço da revolta bolchevique

Em São Petersburgo, militantes de dezenas de países registram em selfies marcha encerrada com trilha americana 

Cristiano Dias, Enviado Especial / São Petersburgo , O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2017 | 05h00

Comunistas do mundo inteiro se reuniram ontem na Estação Finlândia, em São Petersburgo, para celebrar os 100 anos da Revolução Russa. Cerca de 3 mil pessoas marcharam por 2 quilômetros até o cruzador Aurora. Pelo caminho, iam trocando telefones, tirando selfies e cantando slogans revolucionários. 

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Havia um clima caseiro na passeata, com a interação entre pessoas seguindo a mesma cantilena. Desconhecidos abordavam o outro, perguntavam o nome e de onde vinham. Então, descreviam a experiência de ser comunista em casa. “Muitos comunistas de outros países, quando chegam aqui, se sentem aliviados”, conta Nikita Sokolov, de 25 anos, membro do Partido Comunista da Federação Russa (KPRF). “Em muitos lugares, eles se sentem deslocados. Aqui, é como se eles encontrassem uma família.”

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O cortejo seguiu ao som de uma bandinha executando marchas militares. O barulho se misturava com hinos soviéticos entoados por carros de som. Líderes do KPRF também regiam os militantes com gritos em megafones. Os comunistas italianos cantavam Bella Ciao a capela. Os alemães berravam “revolução”. A única coisa que era capaz de alinhar a desordem era a Internacional, sussurrada de vez em quando em vários idiomas ao mesmo tempo.

Muitos que estavam ali tinham uma agenda totalmente diferente. Amir Shakya é membro do Mashal, o Partido Comunista do Nepal, que até 2006 mantinha um conflito armado com o governo. Ele diz que é maoista, luta contra os proprietários de terra e garante que não tem nada contra a burguesia urbana nepalesa.

Arismar Navas é venezuelana de Carabobo. Vive em um país que nem sequer tem elite rural e consolidou seu processo revolucionário – pelo menos na visão do Partido Comunista da Venezuela, que integra a colcha de retalhos do Gran Polo Patriótico, grupo político que apoia o bolivarianismo. “Na Venezuela, a luta é para manter a revolução”, diz Arismar.

Por fim, havia também devotos que lutam pela igualdade em países sem desigualdades. Halinka Augustin é do movimento Rode Morgen (Manhã Vermelha), da Holanda, uma organização marxista-leninista que se consolidou com as greves no Porto de Roterdã, no fim dos anos 70. Segundo ela, o comunismo holandês é menos radical do que os outros. “Nossa agenda envolve outros termas, como meio ambiente e direitos das mulheres”, conta.

Anos 20. O KPRF foi um dos organizadores da manifestação e maior responsável pelo clima de anos 20 da noite: muitos militantes usavam boinas e seguravam bandeiras da União Soviética. Escolheram a dedo a Estação Finlândia como local de partida. Foi ali que Lenin desembarcou, em abril de 1917, vindo do exílio na Suíça. 

A única esquisitice foi a música escolhida para encerrar a festa: o tema do dramalhão Dallas, dos anos 80, um símbolo do capitalismo americano. O ator Larry Hagman, que viveu o personagem J.R. Ewing, costumava dizer que eles foram responsáveis pelo fim da URSS. “Eles (os soviéticos) viam o luxo da família Ewing e achavam que todo o mundo era rico nos EUA. Foi a cobiça que fez com que eles questionassem a autoridade”, disse Hagman em entrevista à Associated Press nos anos 90.

Ontem, Moscou também celebrou. Com bandeiras vermelhas, hinos e gritando slogans comunistas, a marcha passou em frente à Duma (Parlamento) e entrou na Praça Vermelha. O presidente Vladimir Putin, no entanto, não apareceu. Segundo seu porta-voz, Dimitri Peskov, ele seguiu sua rotina normal de trabalho, com encontros no Kremlin. 

Putin é criticado pela oposição por ter se transformado em uma mistura de czar e autocrata soviético. Ele decidiu não celebrar uma revolta popular que derrubou o autoritarismo na Rússia. 

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