Cristiano Dias / Estadão
Cristiano Dias / Estadão

Comunistas vão a festa sem anfitrião

No centenário da revolução, russos ignoram a data, comemorada apenas por estrangeiros

Cristiano Dias, Enviado Especial a São Petersburgo, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 05h00

Ele não diz o nome de jeito nenhum. Apresenta-se como Pedro, o Grande. Ela também não, conta apenas que é a imperatriz Catarina Romanov. Fazem qualquer coisa por 300 rublos (pouco menos de R$ 20): colocam o turista na carruagem, tiram foto e até dançam valsa. 

A imagem da monarquia perambulando diante do Palácio de Inverno, marco zero do levante bolchevique, é um retrato fiel de como a Rússia ignora sua revolução, que completa 100 anos nesta terça-feira. 

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Na Praça do Palácio, ao redor da Coluna de Alexandre, funcionários passaram o dia desfazendo uma estrutura metálica. Os cartazes no chão são das celebrações de três dias atrás, a festa da unidade nacional. “Revolução? Não celebramos mais”, disse Pedro. “Tomara que a monarquia continue na moda. Assim eu não perco meu emprego.”

Nesta terça-feira, a perspectiva é que a TV estatal repita o mesmo blecaute de notícias ocorrido no centenário da Revolução de Fevereiro, no início do ano. Em pesquisa recente da Academia de Ciências da Rússia, um terço da população foi incapaz de dizer o que sentia a respeito da revolução.

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Em algum ponto, a Rússia de hoje se perdeu da Rússia de 1917. Segundo o jornalista Mikhail Zygar, autor do livro The Empire Must Die, sobre o colapso da revolução, os temas ligados ao velho império não sensibilizam mais a população. “É a nossa Atlântida”, diz.

Zygar conta que a decisão de ignorar o centenário foi tomada em uma reunião a portas fechadas no Kremlin entre o presidente Vladimir Putin e seus principais assessores. Com base em informações de fontes do governo, ele afirma que a ordem de Putin era que “apenas historiadores” deveriam debater o centenário, não a sociedade civil. 

Desde então, o que se viu foi um roteiro bem ensaiado. Na semana passada, Dmitri Peskov, porta-voz da presidência, anunciou que o Kremlin não tinha planos de comemorar os 100 anos da Revolução Russa. “O que vamos celebrar?”, questionou.

Apesar da vontade do Kremlin de editar a história da Rússia, a data não será completamente ignorada graças a uma pequena, mas firme, romaria de fiéis de várias partes do mundo. O historiador britânico Eric Hobsbawm dizia que a Revolução Russa tinha um caráter ecumênico. De fato, ela deu vida a partidos comunistas na Ásia, inspirou insurreições na América Latina e foi o fio condutor dos movimentos anticolonialistas africanos. 

Festejo. Nesta segunda-feira, na Estação Finlândia, local da chegada de Lenin a São Petersburgo, em abril de 1917, dez amigos peruanos tiraram fotos e colocaram flores diante da estátua do líder da revolução. Nos últimos dias, a reportagem do Estado encontrou vários grupos de brasileiros, a maioria surpresa com a falta de uma agenda oficial. Outros nem se importaram e deram um jeito de fazer a própria festa. 

Sábado à noite, em um bar da zona norte de Moscou, se reuniu parte da alta-roda do carnaval carioca. O regente do grupo era Alfredo Jacinto Melo, o Alfredinho, o dono e a alma do Bip-Bip, um botequim de Copacabana. 

Aos 74 anos, ele fez um discurso emocionado que interrompeu a roda de samba improvisada. “Meu sonho desde menino era conhecer a Rússia. Eu queria agradecer, porque se não fosse a Revolução Russa, nós no Brasil estaríamos falando alemão.” 

Foi aplaudido de pé por um punhado de brasileiros, para o espanto da plateia da casa.

 

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