Michael Reynolds/EFE
Michael Reynolds/EFE

Concordar com Trump, mesmo que ele não goste

Apesar da visão de mundo do presidente ser alarmante, há coisas importantes no seu programa, como a reforma fiscal e o investimento em infraestrutura

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2017 | 05h00

Esta semana Donald Trump fez algo que me surpreendeu. Ele criou uma política com a qual concordo. Estabeleceu um controle inteligente à proliferação exagerada de regulamentos federais. Sua ação executiva exige de qualquer departamento que queira acrescentar um novo regulamento que se desfaça de dois existentes. 

Pode parecer “perfumaria”, mas o governo britânico adotou essa regra de “entra um, sai dois” em 2012 e ela funcionou perfeitamente. Aliás, embora considere alarmante boa parte da visão de mundo de Trump, concordo em geral com algumas partes importantes de seu programa – reforma fiscal, investimento em infraestrutura, desregulamentação, reforma do serviço público. Mas a pergunta maior que eu fico me fazendo é: será que Trump quer que alguém como eu concorde com ele?

A Casa Branca de Trump decidiu que a melhor maneira de lidar com qualquer instituição ou grupo que possa se colocar em seu caminho é tentar incansavelmente deslegitimá-lo. Isso levou a uma feroz estratégia de ataque à mídia, a qual o presidente agora chama de “partido de oposição”. Seu estrategista-chefe, Stephen Bannon, convidou a mídia a “ficar de boca fechada e apenas ouvir por algum tempo”.

Se formos ouvir os Estados Unidos, quase 3 milhões de americanos votaram a mais em Hillary Clinton do que em Trump. Para saber quais desses grupos tornam o país grande, não estou certo sobre qual critério usar, mas se for criar riqueza e contribuir para o PIB, o de Trump nem chega perto.

Segundo a Brookings Institution, os 500 condados onde Hillary venceu produziram 64% da produção econômica americana, enquanto as 2.600 regiões conquistadas por Trump produziram apenas 36% do PIB. Use-se qualquer medida econômica – emprego, abertura de empresas, inovação – e as áreas com pontuação mais alta votaram amplamente contra Trump.

As elites urbanas podem estar desligadas da realidade do restante do país, mas elas ainda pagam as contas deste. Alguns anos atrás, The Economist comparou o modo como cada Estado americano contribuía para os cofres federais com os recursos que recebia de Washington. O padrão básico é simples: são os Estados azuis, que votaram contra Trump em 2016, que financiam os Estados vermelhos que votaram nele.

De 1990 a 2009, excluindo o Maine (que dividiu seus votos entre os dois candidatos), os Estados de Hillary pagaram coletivamente US$ 2,4 trilhões a mais em impostos federais do que receberam em gastos federais, enquanto os Estados de Trump em conjunto receberam US$ 1,3 trilhão a mais do que pagaram.

Mas não é dessa maneira que penso que devemos olhar para os EUA. O país é um só e diferentes partes e pessoas contribuem de maneiras diferentes. Estamos atravessando momentos em que economia e tecnologia separam a população – algumas pessoas e lugares prosperam enquanto outros definham. O objetivo deveria ser o de usar a política como um mecanismo de união tanto pelas políticas públicas quanto pelo discurso público.

Trump não fez quase nenhum esforço para unir os EUA, afirmando que o país estava dividido antes de ele ser eleito. Ele tem atacado impiedosamente todos que ousem discordar dele, sejam eles senadores, primeiros-ministros ou estudantes.

O desafio para a imprensa deve ser garantir que nós não espelhemos a hostilidade de Trump. Não podemos absorver e refletir essa negatividade. Não somos a oposição. Somos uma instituição civil, protegida pela Constituição, cuja intenção é cobrar responsabilidades dos governos e fornecer informações reais aos cidadãos.

Espero ser capaz disso. Ao longo do caminho, quando for preciso, discordarei vigorosamente de Trump. Mas o que é igualmente importante, quando necessário, quer ele goste ou não, concordarei com ele. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA

 

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