Adriana Carranca / Estadão
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Conflito congolês amplia drama dos meninos-soldado

Insurgentes recrutam menores à força na República Democrática do Congo e os submetem a testes, aos quais nem todos sobrevivem

Adriana Carranca, Enviada especial - O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2013 | 03h02

MASISI, REP. DEMOCRÁTICA DO CONGO - Era um fim de tarde sem chuva e o jovem Jacques saiu com o primo para pastorear as três cabras da tia pelos campos de Nyiragongo, aos pés das Montanhas de Virunga, cartão-postal da República Democrática do Congo. Nunca mais voltariam para casa. Quinze homens armados com fuzis os cercaram. Amarram a mão de um à de outro; a que estava livre ajudava a tirar da frente o mato por onde seguiram a pé até o amanhecer.

 

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No meio da noite encontraram outro grupo de meninos sequestrados, que atados formavam um longo cordão humano - uns 15, calcula Jacques. Atrás deles, 20 soldados usavam chicotes para fazê-los apressar o passo na escuridão.

Num descampado de Rutshuro, área dominada por rebeldes do M23, os meninos puderam se sentar. Um comandante perguntou a idade de cada um, para depois ordenar que recebessem o mesmo número de chibatadas. O ritual repetiu-se por três dias - ao nascer e ao cair do sol - durante os quais sobreviveram de água suja e mais nada.

Era a primeira fase do "treinamento". Só os mais fortes se tornariam meninos-soldado. "Eles batiam em todas as partes do corpo, xingavam, pisavam na sua cabeça. É o batismo. Quem sobreviver, vira soldado", Jacques relata, a cabeça baixa e a voz quase inaudível, enquanto arranca nacos de pele dos braços com as unhas. "Meu primo... Ele não sobreviveu."

O primo tinha 15 anos. Mais de 5,4 milhões foram mortos em quase 2 décadas de conflitos no Congo - a metade, crianças, segundo a Unicef, agência da ONU para a infância. Centenas, talvez milhares, são feitas reféns de grupos armados e treinadas para encorpar seus exércitos de miseráveis.

Em 2008, último dado disponível, 30 mil meninos-soldado lutavam no leste do país, segundo a organização Child Soldiers International. Alguns integram os grupos voluntariamente, como o jovem de 16 anos que a reportagem encontrou baleado num hospital de Masisi, mantido pela organização Médicos Sem Fronteiras. Monossilábico, ele diz apenas que se cansou da vida. Um dia apresentou-se ao chefe do grupo Nyaturas e virou menino-soldado. Arrependido, espera para ser reintegrado à família - que nem sempre aceita os filhos de volta.

Em dois meses, entre maio e junho, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha devolveu 76 meninos-soldado às suas famílias e resgatou outros 300, que ainda aguardam destino semelhante. Estes são os sobreviventes.

"Ele começou a cuspir sangue, então o deixaram ao relento. Eu o vi morrer aos poucos. Eu não pude ajudá-lo, eles não me deixaram". Jacques não derrama uma lágrima. No campo de treinamento, aprendeu a não chorar. Repete a mesma frase várias vezes, sem um respiro, e agora com mais ênfase. Sua fala soa como uma súplica. Quer ter certeza de que o interlocutor acredita no que está dizendo, quando ele próprio custa a admitir o que viveu. "Um dia, um soldado disse: 'Hoje é a sua vez'. Então, ele me estuprou. Duas vezes". As palavras saem como um vômito. "Foi a primeira vez... Você é a primeira pessoa para quem eu conto isso."

O Fundo Global contra Aids, Tuberculose e Malária distribui às vítimas de estupro as chamadas pílulas "do dia seguinte" para prevenção da Aids que atinge proporções epidêmicas no Congo. Mas o tratamento deve ser iniciado em até 72 horas da exposição ao vírus. Para Jacques, seria tarde demais.

Depois do estupro, ele decidiu que se arriscar a morrer em fuga era melhor do que viver. Jacques conta que os meninos eram obrigados pelos rebeldes do M23 a tomar uma pílula que os deixava "agitados e violentos". Eles saqueavam vilarejos e estupravam meninas. Jacques escondia a pílula sob língua e depois a enterrava. Uma noite, após um desses ataques, aproveitou o cansaço do comandante e, ao ouvir seu ronco, deixou o fuzil no chão e saiu andando sem olhar para trás. Dois dias depois, ao chegar ao campo de deslocados de Bulengo, olhou para o céu e soltou um grito: "Eu consegui! Eu fugi!"

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