Mariana Bazo/ Reuters
Mariana Bazo/ Reuters

Congresso peruano votará destituição de presidente por elo com Odebrecht

Maioria no Parlamento, fujimoristas conseguem apoio necessário e iniciam processo para derrubar Kuczynski; após líder negar relação com construtora brasileira, surge prova de que consultora dele recebeu US$ 782 mil da empresa

O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 00h52

O Congresso do Peru deu início na sexta-feira, dia 15, ao processo de destituição do presidente Pedro Pablo Kuczynski, após uma CPI descobrir que ele ocultou US$ 782 mil recebidos da Odebrecht por meio de uma firma de consultoria. O pagamento foi feito quando Kuczynski era ministro de Alejandro Toledo, entre 2004 e 2006. Os fujimoristas, maioria no Parlamento, exigiram a renúncia do presidente ou a abertura de um processo de impeachment. 

'Não vou renunciar', diz presidente do Peru após revelações sobre Odebrecht

Opositores do partido fujimorista Força Popular reuniram 27 assinaturas de um total de 130 congressistas, entre legendas de diferentes tendências, para iniciar o trâmite para derrubar Kuczynski por “permanente incapacidade moral”. O próximo passo é que 52 parlamentares votem a favor do pedido, o que deve ocorrer na quinta-feira. 

O presidente terá direito a defesa e a oposição precisa de 87 votos para tirá-lo do cargo. Os fujimoristas têm 71 deputados e precisam de mais 16. Partidos menores deram sinais – mesmo na extrema esquerda, mais avessa ao fujimorismo – de que apoiarão a moção. O processo, segundo analistas, deve ser concluído até a semana que vem.

Caso perca o cargo, Kuczynski deve ser substituído por um de seus vice-presidentes: Martín Vizcarra, também envolvido em denúncias, e Mercedes Araóz, mais próxima da oposição. Ela seria a primeira mulher a chegar à presidência do Peru. Caso os dois também acabem destituídos, o Congresso deve convocar novas eleições. 

Odebrecht pagou US$ 782 mil a presidente do Peru em 2004, diz CPI

Denúncias. A Odebrecht revelou na terça-feira ao Congresso ter pago US$ 782 mil por consultorias a uma empresa de Kuczynski. Os dados foram fornecidos pela empresa à comissão que investiga os desdobramentos da Lava Jato no Peru. “Um documento assinado por Mauricio Cruz, representante da Odebrecht Peru, destaca que a empresa ligada diretamente a Kuczynski prestou serviço de consultoria por US$ 782.207 à empresa do grupo Odebrecht”, diz uma nota do Congresso.

O presidente admitiu ser dono da empresa, mas alegou que não participou do gerenciamento de lucros enquanto trabalhava como ministro. “Peço o levantamento do meu sigilo bancário para que revisem tudo o que queiram e assumo todas as responsabilidades dos meus atos”, respondeu Kuczynski. “Não vou renunciar, nem à minha honra, nem aos meus valores, nem às responsabilidades como presidente de todos os peruanos.” 

No mês passado, Kuczynski negou veementemente ter qualquer ligação profissional ou política com a Odebrecht. A contradição abriu caminho para que a oposição alegasse que ele mentiu durante o exercício do cargo.

Keiko Fujimori nega ter recebido dinheiro da Odebrecht

Segundo o deputado fujimorista Héctor Becerril, os principais partidos de oposição discutirão os próximos passos do processo. Os esquerdistas da Frente Ampla e o Partido Aprista, que também assinarão a moção de destituição, devem votar pelo afastamento. “Ele teve a chance de renunciar e não foi capaz. Quer se aferrar ao poder”, disse Becerril. Dada a força da oposição no Congresso, analistas peruanos duvidam que o presidente consiga se manter no poder. “Qualquer que seja o cenário, a crise está cada vez mais tensa”, disse o consultor Larrain Vial.

Os desdobramentos da operação Lava Jato já levaram para a cadeia o ex-presidente Ollanta Humala. Alejandro Toledo tem contra si um mandado de prisão internacional e o ex-presidente Alan García também está envolvido nas denúncias, assim como a líder da oposição, Keiko Fujimori, que, segundo o acordo de delação da Odebrecht, teria recebido doações da empresa na eleição de 2011. A força tanto da Apra quanto do Força Popular no Legislativo e no Judiciário, no entanto, torna mais difícil esses casos avançarem.

Eleito por uma margem estreita de 0,24 ponto porcentual sobre a rival Keiko Fujimori, Pedro Pablo Kuczynski não teve vida fácil desde que assumiu o cargo de presidente do Peru, há 16 meses. Na eleição parlamentar, o partido do presidente, o Peruanos Por el Kambio (PPK), obteve apenas 18 assentos, ante 71 do fujimorismo. Assim, o presidente viu-se obrigado a negociar cada projeto legislativo.

A partir de meados deste ano, o partido de Keiko Fujimori passou a pressionar abertamente Kuczynski, como parte de seus esforços para aliviar a pena imposta pela Justiça ao ex-presidente Alberto Fujimori. Três ministros e, posteriormente, todo o gabinete do presidente foram demitidos após a oposição aprovar uma moção de desconfiança no Parlamento. / AP, AFP e REUTERS

 

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