Conservador britânico quer o poder, mas não negocia temas cruciais

Um dos sensos comuns que pairam em Londres desde a tarde de sexta-feira, quando o Partido Conservador fez sua proposta de acordo ao Liberal, é que David Cameron quer o poder, mas não pode negociar sua alma.

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2010 | 00h00

Bandeiras históricas de seu partido, como os investimentos em defesa e a aversão à reforma política, e causas mais recentes, como a rejeição à União Europeia e à imigração, são inegociáveis e atrapalham a criação de um governo de coalizão com Nick Clegg, hipótese avaliada ontem pela imprensa britânica como "muito difícil".

A dificuldade em flexibilizar as principais propostas de seu partido foi exposta no dia seguinte à eleição, quando Cameron anunciou sua intenção de propor "uma grande, aberta e abrangente oferta aos liberais". O conservador diz estar pronto a negociar os temas comuns aos dois programas de campanha, mas sem abrir mãos de seus princípios. Lá estão a reforma fiscal, os investimentos em uma economia sustentável, a oposição de ambos ao projeto trabalhista de criar um novo sistema de identificação para britânicos e estrangeiros.

Divergências. Cameron não pode esconder as divergências históricas entre os dois partidos. "Quero deixar claro que não acredito que um governo deva conceder mais poderes à União Europeia", afirmou em sua "oferta", batendo de frente com Clegg, um ardoroso fã da integração, a ponto de defender a adoção do euro em plena crise da Grécia.

Referindo-se à proposta liberal de regularização em massa dos estrangeiros ilegais que residam no país há mais de dez anos, Cameron também foi taxativo: "Não acredito que um governo possa ser fraco ou sutil com a imigração, que precisa ser controlada de forma apropriada."

Temas como cortes orçamentários urgentes, a ser realizados este ano, redução dos investimentos em defesa - em especial no arsenal nuclear - também pesam na balança. Mas nenhum pesa mais do que a proposta conservadora relativa à reforma do sistema político, uma questão de sobrevivência para o Partido Liberal. "Os liberais têm suas ideias, nós temos as nossas", reconheceu Cameron ao tratar do assunto, propondo apenas "um comitê interpartidário de investigação sobre a reforma política".

Aversão. Essa incapacidade de romper com a tradição e propor uma reforma real do sistema político provoca desde sexta-feira reações de aversão à aliança entre expoentes liberais como Matthew Oakeshott, um dos porta-vozes do partido.

Clegg deixou claro na manhã de ontem, ao chegar a seu quartel-general, em Cowley Street, em Londres, para mais uma rodada de discussões com correligionários, que a oferta de Cameron pode não ser suficiente.

Ao enumerar suas quatro prioridades na negociação, listou: reforma fiscal, educação igualitária, nova abordagem econômica e "reforma política fundamental de nosso sistema".

Não contente, adicionou uma pitada a mais de dúvida sobre as chances de coalizão com os conservadores: "Estou muito empenhado em que os liberais entrem em discussão com outras partes, em um espírito construtivo."

É aí que entram as chances do premiê trabalhista Gordon Brown. A oferta de reforma eleitoral de Cameron é muito inferior à proposta do Partido Trabalhista, que aceita a realização de um referendo sobre a adoção da proporcionalidade no sistema eleitoral, hoje distrital.

"Os conservadores, em razão de sua antipatia pelo referendo, provavelmente não estarão aptos a oferecer a Clegg algo equivalente", entende Tony Travers, cientista político diretor do Greater London Group, unidade da London School of Economics. O acadêmico destaca o oportunismo da oferta de Brown. "A conversão súbita dos trabalhistas ao referendo deriva de seu desejo de permanecer no poder, apesar de terem ido mal nas eleições. Essa oferta nunca foi feita nos últimos 13 anos."

Apesar de todas as desavenças com Cameron, as negociações entre conservadores e liberais continuam prioritárias.

Cameron e Clegg tiveram uma primeira reunião de trabalho às 18h30min de ontem. Do conteúdo do encontro pouco se sabia no final da noite. Em comunicado, os dois líderes classificaram a conversa como "produtiva" e marcaram uma nova discussão para a manhã de hoje. A perspectiva de um acordo ainda no fim de semana, contudo, já não é a tendência mais forte.

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