Cláudia Trevisan / Estadao
Cláudia Trevisan / Estadao

'Cônsul' ajuda brasileiros em apuros em Houston

Após longa viagem por terra nos anos 80, professor catarinense vive hoje no Texas

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / El Paso, Texas, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2017 | 05h00

Cesar Rossatto tinha 24 anos quando embarcou em um ônibus em Santa Catarina determinado a chegar por terra à fronteira do México com os EUA. O ano era 1984, o último antes do fim do regime militar no Brasil. Poucos meses antes, seu pedido de visto havia sido negado pelo consulado americano em São Paulo. 

Durante dias, Rossatto viajou de ônibus, carona, balsa e a pé, até chegar à Venezuela. Lá, percebeu que seria impossível atravessar com segurança a América Central, mergulhada em guerras civis em El Salvador e na Nicarágua, e decidiu voar até o Sul do México. 

Um mês depois de ter saído de Santa Catarina, ele chegou a Tijuana, que faz fronteira com San Diego, na Califórnia.

Sem visto, ficou na cidade mexicana durante 30 dias, trabalhando como voluntário em um abrigo para imigrantes, o que acabou garantindo sua entrada nos EUA. Lá, Rossatto conheceu um padre americano que lhe deu uma carta na qual se comprometia a garantir sua hospedagem e alimentação. 

O brasileiro cruzou a fronteira legalmente, mas logo se tornou “indocumentado”, mesma condição de 11 milhões de imigrantes, um dos principais alvos da campanha e dos primeiros cem dias do governo Donald Trump, que se completam amanhã. 

Quando o pedido de renovação de seu visto foi negado, Rossatto decidiu permanecer nos EUA, em uma vida semiclandestina que impedia que ele visitasse o Brasil. Apesar dos riscos, ele saiu do país cerca de cinco anos mais tarde para participar do funeral do pai em Santa Catarina. Na volta, atravessou de maneira ilegal a fronteira com o México, cruzando o Rio Grande longe dos agentes de imigração.

Depois de quase nove anos sem documentos, Rossatto conseguiu regularizar sua situação graças a seu emprego como assistente social, no qual se dedicava a amparar imigrantes que também estavam nos EUA sem documentos. Em 1996, ele obteve seu greencard e, cinco anos mais tarde, a cidadania americana.

Há 15 anos, Rossatto é professor da Universidade do Texas em El Paso, cidade na fronteira com o México na qual 80% da população é latina e onde o espanhol é predominante. “De todas as cidades em que vivi nos EUA, El Paso é a mais latina. Los Angeles tem muitos hispânicos, mas a cultura é branca. Miami também é latina, mas em El Paso esse traço é muito mais forte”, disse Rossatto, que fez doutorado em Educação na Universidade da Califórnia em Los Angeles e deu aulas na Universidade de Miami.

No segundo mais movimentado porto de entrada da fronteira depois de Tijuana, Rossatto acaba atuando como uma espécie de voluntário do Consulado do Brasil em Houston, que o aciona de vez em quando para dar assistência a algum brasileiro em apuros. “Por causa da minha história e do que eu passei, eu sou sensível à situação dos imigrantes”, disse ao Estado em sua casa em El Paso.

Segundo ele, a crise econômica no Brasil levou ao aumento do número de brasileiros que cruzam a fronteira. Mas dos que conseguem entrar, poucos ficam na cidade, de acordo com ONGs que trabalham com imigração.

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