AFP PHOTO / YONHAP
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Convite da Coreia do Norte para cúpula em Pyongyang cria dilema para Seul e aliados

Estão em jogo os esforços para controlar o programa nuclear de Kim e a melhoria das relações transfronteiriças

O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2018 | 21h25

O líder da Coreia do Norte,  Kim Jong-un, convidou o seu homólogo sul-coreano para uma cúpula em Pyongyang, deixando Seul com um dilema: aceitar e arriscar aumentar as diferenças com os Estados Unidos sobre como controlar o programa nuclear da Coreia do Norte ou recusar e arriscar a oportunidade de melhorar as relações transfronteiriças.

O convite foi transmitido por Kim Yo-jong, enviada especial do Norte e irmã do ditador Kim Jong-un, ao presidente sul-coreano, Moon Jae-in, durante uma reunião de três horas na Casa Azul, em Seul, neste sábado, 10, onde as duas delegações se reuniram em um almoço.

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Moon evitou qualquer compromisso imediato em resposta à oferta do Norte, dizendo a Kim que esperava "criar o ambiente" para que tal cúpula ocorra, de acordo com um porta-voz presidencial. O presidente sul-coreano instou os representantes do Norte a "buscarem ativamente" negociações com os EUA, descrevendo-as como necessárias para uma melhoria nas relações inter-coreanas.

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O convite estendeu um aquecimento nas relações entre os dois países que coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul. Na noite anterior, Kim e Moon apertaram a mão diante de uma audiência global, quando atletas das duas Coreias entraram na Cerimônia de Abertura de Pyeongchang juntos, sob uma bandeira unificada.

O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, que estava sentado a poucos metros de Moon e Kim, evitou esboçar uma reação. Mais tarde, o porta-voz de Pence disse que o vice-presidente "não aplaude [a Coreia do Norte] ou troca amabilidades [com] o regime mais opressivo na Terra". Os Estados Unidos expressaram ceticismo sobre as intenções dos norte-coreanos nas Olimpíadas de Inverno e continuaram pressionando para isolar o regime, mesmo que o líder sul-coreano tenha procurado o diálogo com Pyongyang.

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Pence e Moon não discutiram a perspectiva de conversas em Pyongyang, disse um alto funcionário do governo. Em declarações à imprensa antes de deixar o país, Pence evitou falar sobre o convite, e disse apenas que os EUA e a Coreia do Sul "continuarão a ficar fortes e trabalharão de forma coordenada para exercer a máxima pressão econômica e diplomática sobre a Coreia do Norte" até que Pyongyang abandone seu programa de armas nucleares. Segundo ele, não há dúvida entre os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão "sobre a necessidade de continuar a isolar a Coreia do Norte de forma econômica e diplomática até que ela abandone o seu programa de mísseis nucleares e balísticos", disse.

Segundo um alto funcionário do governo americano, embora conversas entre as Coreias estejam ocorrendo em conjunto com as Olimpíadas, Pence está confiante de que EUA, Japão e Coreia do Sul concordam sobre a necessidade de manter e intensificar as sanções. De acordo com a fonte, negociações apenas resultaram em diminuição da pressão nos últimos 20 anos. Ele acrescentou que Moon afirmou que só quando a Coreia do Norte começar a se afastar das armas nucleares a pressão seria aliviada.

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Durante a reunião inter-coreana no sábado, Kim também transmitiu uma carta a Moon do líder norte-coreano e depois assinou um livro de visitas expressando o desejo de um "futuro de unificação e prosperidade". A reaproximação ocorreu após um ano de tensões crescentes em que a Coreia do Norte testou inúmeros mísseis e sua arma nuclear mais poderosa, levando a várias rodadas de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, dos EUA e de seus aliados.

Essas sanções agora incluem restrições ao comércio de petróleo, carvão e outros recursos com a Coreia do Norte, assim como o acesso ao sistema financeiro internacional. "A Coreia do Norte está muito isolada a nível internacional", disse Cheong Seong-chang, membro sênior do Sejong Institute, um think tank privado. Segundo ele, é por isso que a Coreia do Norte está nas Olimpíadas de Inverno e sugeriu a cúpula entre os dois países.

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Ao mesmo tempo, os esforços da Coreia do Sul para se aproximar do Norte estão sob pressão do seu aliado em Washington, que disse que qualquer diálogo com a Coreia do Norte deve começar com um compromisso sério com a desnuclearização - um tópico que Pyongyang deixou claro que não tem interesse em discutir.

Os EUA e a Coreia do Sul afirmaram seu compromisso de consulta mútua ao avaliar alternativas militares e diplomáticas sobre a Coreia do Norte, mas houve recentes sinais de tensões entre os aliados.

Uma porta-voz do vice-presidente americano, contatada para comentar a oferta de uma cúpula entre as duas Coreias, ressaltou o compromisso dos EUA com a continuidade do isolamento e das sanções contra a Coreia do Norte. Pence está "grato que o presidente Moon reafirmou o seu forte compromisso com a campanha de pressão máxima global e o seu apoio à continuidade das sanções", segundo a porta-voz. /Associated Press

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