JEFF PACHOUD/AFP
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Copiloto derrubou Airbus na França de forma deliberada

Andreas Lubitz, de 28 anos, bloqueou a porta da cabine, impedindo que comandante retornasse ao posto; Procuradoria da República da França diz não ter indícios sobre motivações do crime

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

26 Março 2015 | 08h42

(Atualizada às 14h45) PARIS - A tragédia do voo 4U9525 da Germanwings foi causada pelo copiloto da aeronave, o alemão Andreas Lubitz, de 28 anos, informou nesta quinta-feira, 26, a Procuradoria da República de Marselha, na França. Com base nas gravações de uma das caixas-pretas do Airbus, a investigação apontou que o tripulante provocou a descida do avião por iniciativa própria até o choque com uma montanha dos Alpes do sul. Sozinho na cabine, o jovem não reivindicou o ato, deixando em aberto a razão do crime. 

As revelações sobre os 30 minutos finais do voo entre Barcelona, na Espanha, e Dusseldorf, na Alemanha, foram possíveis graças à captação dos sons na cabine pelo Cockpit Voice Recorder (CVR), uma das duas caixas-pretas de aviões comerciais - a única localizada até agora em meio aos destroços. Na quarta-feira, um arquivo digital foi extraído do equipamento pelos peritos do Escritório de Investigação e Análise para a Aviação Civil (BEA, na sigla em francês), o órgão responsável pela apuração das causas do acidente.

No final da manhã desta quinta, o procurador Brice Robin reuniu-se com as famílias de vítimas, comunicando-lhes do resultado preliminares da investigação. Às 13h, Robin convocou a imprensa e informou: a queda do avião da Germanwings não foi um acidente, mas um crime. As gravações indicam que, "por necessidades fisiológicas", o piloto da aeronave, cujo nome ainda não foi confirmado, dá ordens a Lubitz, transfere o controle da aeronave e deixa a cabine - um procedimento normal. Ouve-se o assento recuar e a porta se fechar. A partir de então, o copiloto fica sozinho no cockpit.    

"Quando ficou só, o copiloto manipulou os botões do Sistema de Monitoramento de Voo para acionar a descida do aparelho", informou Robin, confirmando a atitude deliberada de derrubar a aeronave. "Ele acionou esse botão por uma razão que nós ignoramos totalmente, mas que pode ser analisada como uma vontade de destruir o avião."

De acordo com Robin, o comandante tenta retornar à cabine, bate à porta, mas não é atendido. A hipótese mais provável é de que Lubitz tenha acionado o mecanismo que bloqueia a porta, impedindo que ela seja aberta por fora. A partir de então, o copiloto permanece em silêncio, mas a gravação capta sua respiração normal, sem sinal de nenhum problema de saúde. "Ele estava vivo até o momento do choque", completou o procurador. 

Durante o período da descida, os gravadores registram ainda a voz de controladores de tráfego aéreo contatando o avião, sem resposta do copiloto, que não faz nenhum alerta de "Mayday", o pedido de socorro. Tão foi possível ouvir ainda as tentativas de o piloto arrombar a porta blindada da cabine, os alertas automáticos de baixa altitude e de choque iminente. "Nenhuma mensagem de desastre ou de urgência foi recebida pelos controladores aéreos e nenhuma resposta foi dada ao conjunto de chamados dos diferentes controladores aéreos", afirmou Robin. "A interpretação mais plausível é de que o copiloto, por abstenção voluntária, recusou-se a abrir a porta da cabine ao comandante de bordo e acionou o botão orientando à perda de altitude."

Antes da colisão fatal, o Airbus A320 ainda raspou em pelo menos um pico, até atingir a montanha em cheio a mais de 700km/h. Segundo a investigação, os 144 passageiros do voo só compreenderam o que se passava nos instantes finais, quando são registrados os gritos vindos da cabine de passageiros. "Nós só ouvimos os gritos no fim, nos últimos instantes, e a morte foi instantânea", reiterou o procurador.

Se as causas do acidente parecem esclarecidas, as motivações de Lubitz são totalmente desconhecidas das autoridades. "Até este momento, nada nos permite dizer que se trata de um atentado terrorista", afirmou o procurador, frisando o fato de que o copiloto não se manifestou durante os minutos de queda do avião - não atribuindo, portanto, o ato suicida a nenhum grupo ou causa política ou religiosa. "O copiloto tinha nacionalidade alemã e nada o ligava a um histórico de terrorista."

Para Carsten Spohr, diretor-presidente da Lufthansa, proprietária da Germanwings, as investigações não deixam dúvida. "Nós cremos que o avião foi deliberadamente levado a colidir com a montanha, por vontade do copiloto", disse Spohr, advertindo também não haver indícios de terrorismo, mas ressaltando se tratar de um assassinato em massa, e não de um suicídio. 

"Quando uma pessoa provoca com a sua morte a morte de outras 149 pessoas, não é a palavra 'suicídio' que deve ser empregada", afirmou Spohr, que definiu o caso como "a maior tragédia da história da companhia", apesar de tratar-se de um caso isolado.

Em uma declaração pública pouco comum, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se disse chocada e incrédula com uma "catástrofe inimaginável". "O que foi perpetrado foi um crime", sublinhou a chanceler.

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