AP Photo/Wong Maye-E
AP Photo/Wong Maye-E

Coreia do Norte miniaturizou ogivas nucleares, diz relatório dos EUA

De acordo com documento secreto datado de 28 de julho obtido pelo jornal 'The Washington Post', regime de Kim Jong-un conseguiu cruzar o 'limiar-chave' para se tornar uma nação nuclear plena; país teria até 60 armas nucleares

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2017 | 15h03
Atualizado 08 Agosto 2017 | 16h19

WASHINGTON - A Coreia do Norte conseguiu miniaturizar com sucesso uma ogiva nuclear capaz de ser transportada por um de seus mísseis, cruzando um limiar-chave no caminho para se tornar uma nação nuclear plena, concluíram funcionários de inteligência dos EUA. A avaliação está em um documento confidencial obtido pelo jornal The Washington Post.

Esta nova análise, concluída no mês passado pela Agência de Inteligência de Defesa (DIA, na sigla em inglês) foi revelada junto com outra avaliação da inteligência que aumentou bruscamente a estimativa oficial do número total de bombas no arsenal atômico do país comunista: agora, os EUA dizem que até 60 armas nucleares estão sob controle de Kim Jong-un - número que especialistas independentes acreditam ser bem menor.

Essas conclusão devem aprofundar ainda mais a preocupação de Washington em relação à evolução militar da Coreia do Norte, que parece avançar em um ritmo muito mais rápido do que a maioria dos especialistas previa. Funcionários do governo americano concluíram que Pyongyang também está superando as expectativas em seus esforços para construir um míssil balístico intercontinental capaz de atingir cidades no continente americano.

Apesar de fazer mais de uma década desde que a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear, muitos analistas acreditavam que levaria vários anos até que os cientistas do país pudessem projetar uma ogiva compacta que pudesse ser carregada por um míssil a alvos distantes. Mas estas novas informações de inteligência, datadas de 28 de julho, indicam que este marco crítico já foi alcançado. 

"A Comunidade de Inteligência concluiu que a Coreia do Norte produziu armas nucleares para transporte por míssil balístico, incluindo armas transportadas por mísseis intercontinentais (ICBM)", diz o texto do governo americano ao qual o jornal teve acesso. As conclusões gerais da avaliação foram confirmadas ao diário por duas fontes que tiveram acesso ao documento. Ainda não se sabe se o regime já testou essa arma com design reduzido - algo que desde o ano passado o país alega ter feito.

Uma outra avaliação feita nesta semana pelo Ministério da Defesa do Japão também conclui que as evidências sugerem que a Coreia do Norte conseguiu realmente concluir a miniaturização de ogivas nucleares. A DIA e o escritório do Diretor Nacional de Inteligência do EUA não quiseram comentar as afirmações do Post.

Aposta

Os analistas concluíram que Kim Jong-un aposta cada vez mais na confiabilidade de seu arsenal nuclear, o que poderia explicar as recentes atitudes desafiadoras do ditador, incluindo testes de mísseis que provocaram críticas até mesmo do seu aliado mais próximo, a China. 

No sábado, tanto Pequim quanto Moscou se juntaram aos outros membros do Conselho de Segurança da ONU e aprovaram novas sanções econômicas ao isolado país asiático, incluindo uma barreira para as exportações do país, responsáveis por quase um terço da receita anual de US$ 3 bilhões de Pyongyang.

O avanço do programa nuclear de Kim também aumenta a pressão sobre o presidente americano, Donald Trump, que garantiu que não permitirá que a Corria do Norte possa ameaçar os americano com armas nucleares. Em entrevista exibida no sábado pelo Hugh Hewitt Show, da emissora MSNBC, o conselheiro nacional de segurança H.R. McMaster afirmou que a possibilidade de a Coreia do Norte possuir mísseis nucleares intercontinentais seria "intolerável da perspectiva do presidente (Trump)".

"Temos que fornecer opções... E isso incluir a opção militar", disse McMaster. O especialista afirmou, no entanto, que o governo americano faria de tudo para "pressionar Kim Jong-un e os que estão ao seu redor, para que eles concluam que é do interesse deles se desnuclearizar".

As opções de ação que estariam em avaliação em Washington iriam desde uma nova tentativa de negociação multilateral até o reenvio das armas nucleares americanas para a Península da Coreia, disseram membros do governo com acesso às discussões internas do governo Trump.

Desafio

Determinar com precisão a composição do arsenal nuclear da Coreia do Norte tem sido um desafio difícil para os funcionários de inteligência das potências mundiais, principalmente em razão do sigilo e do isolamento extremos do regime.

Os cientistas do país conduziram cinco testes nucleares desde 2006, sendo o último deles a detonação de 20 a 30 quilotoneladas em 9 de setembro, cuja explosão teria o dobro da força em comparação com a bomba lançada pelos americanos em Hiroshima, no Japão, em 1945.

No entanto, produzir uma ogiva compacta que possa ser carregada por um míssil é uma façanha tecnicamente exigente que muitos analistas acreditavam estar além das capacidades da Coreia do Norte. 

No ano passado, a imprensa estatal do regime exibiu na capital, Pyongyang, um dispositivo esférico que um porta-voz do governo descreveu como uma ogiva miniaturizada, mas na ocasião não foi possível determinar se tratava-se de um dispositivo real. O teste conduzido em setembro foi descrito pelas autoridades do país como uma detonação desta ogiva miniaturizada que poderia ser utilizada com um míssil, mas a afirmação foi questionada pela comunidade internacional.

"O que inicialmente se parecia com uma Crise dos Mísseis de Cuba em câmera lenta agora já tem mais a cara do Projeto Manhattan", disse Robert Litwak, especialista na não proliferação nuclear do Woodrow Wilson International Center for Scholars e autor do livro "Preventing North Korea's Nuclear Breakout" (Prevenindo a ruptura nuclear da Coreia do Norte, em tradução livre), lançado neste ano pelo centro de estudos. "Há um senso de urgência por trás do programa que é algo novo para a era de Kim Jong-un."

Enquanto alguns especialistas minimizam o progresso da Coreia do Norte, outros alertaram para o perigo de superestimar a ameaça. Siegfried Hecker, diretor emérito do Laboratório Nacional Los Alamos e o último funcionário dos EUA a inspecionar pessoalmente as instalações nucleares de Pyongyang, calculou o tamanho do arsenal norte-coreano não passe de 20 a 25 bombas. Hecker também advertiu sobre os riscos potenciais de transformar Kim em uma ameaça maior do que ele realmente é.

"O exagero (neste caso) é particularmente perigoso", disse Hecker, que visitou a Coreia do Norte sete vezes entre 2004 e 2010 e se encontrou com os principais envolvidos no programa de armas do país. "Alguns gostam de retratar Kim como um louco - um demente - e isso faz o público acreditar que ele imparável. Ele não é louco, mas também não é suicida. Ele não é sequer imprevisível." / WASHINGTON POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.