KCNA/Handout via REUTERS/File Photo
KCNA/Handout via REUTERS/File Photo

Coreia do Norte quer conversar com EUA

Em várias ocasiões os norte-coreanos indicaram que são a favor do diálogo, mas as ameaças de Trump os têm deixado confusos

Suzanne DiMaggio e Joel S. Wit / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 05h00

Há vários meses, os EUA e a Coreia do Norte estão mutuamente empenhados em agravar as tensões entre eles. A possibilidade de o confronto descambar para uma terrível guerra – e não por fatalidade ou acidente – torna-se cada vez mais real. 

O presidente Donald Trump diz que a Coreia do Norte não demonstra interesse em encontrar uma saída pacífica para o impasse. Mas, na terça-feira, durante visita à Coreia do Sul, Trump evitou reafirmar sua opinião anterior de que negociações são “perda de tempo”.

+ Coreia do Norte pode sofrer ‘sanções para valer’ com lei nos EUA

Durante o último ano, participamos de discussões informais com funcionários da Coreia do Norte, às quais também estiveram presentes ex-funcionários do governo americano, militares da reserva e especialistas no tema. Embora empenhados em montar um arsenal nuclear para defender seu país, os norte-coreanos se disseram abertos a conversar sobre como evitar um confronto desastroso. 

Antes ainda de Trump tomar posse, representantes do governo norte-coreano haviam dado sinais de que estavam dispostos ao diálogo. Num encontro em Genebra, pouco depois da eleição presidencial americana, eles manifestaram a vontade de retomar os contatos interrompidos no último verão. 

Os norte-coreanos também levantaram a possibilidade de se discutir uma agenda para conversações formais nas quais poderiam ser abordadas as preocupações americanas sobre o programa nuclear e de mísseis da Coreia do Norte e sobre a “política hostil americana” – expressão com a qual os norte-coreanos costumam definir o que consideram ameaças políticas, militares e econômicas da parte dos EUA. 

Essa disposição foi reforçada em reuniões em Pyongyang após Trump assumir o cargo. Funcionários norte-coreanos estimaram que a posse do novo governo trazia uma oportunidade de recomeço, acenando ainda com a ideia de conversações sem precondições. 

Meses atrás, o funcionário do Departamento de Estado encarregado da questão norte-coreana, embaixador Joseph Yun, reuniu-se discretamente com Choe Son-hui, chefe do escritório para a América do Norte do Ministério do Exterior norte-coreano. Foi o primeiro encontro entre um funcionário do governo Trump e um representante norte-coreano.

Em conversas não oficiais, os norte-coreanos explicaram que a aceleração de seu programa nuclear e de mísseis refletia a crença de seu país de que tais armas eram o único meio de fazer frente a uma intenção dos EUA de derrubar o governo de Kim Jong-un. Para os norte-coreanos, que veem o destino da Líbia de Muamar Kadafi e do Iraque de Saddam Hussein como um alerta, demonstrar que podem construir um míssil nuclear capaz de atingir os EUA é a mais alta prioridade. 

Mas essa situação ameaçadora pode trazer em si uma abertura. Em nossas conversações, os norte-coreanos sustentaram que não estão tentando ser um Estado nuclear com um grande arsenal, mas querem ter armas suficientes para se defender. Desde junho, funcionários norte-coreanos vêm dizendo publicamente que seu país entrou na fase final do desenvolvimento de sua força nuclear, o que indica que a Coreia do Norte tem uma conclusão em mente. 

Essa potencial abertura ao diálogo precisa ser explorada. Acreditamos que o melhor procedimento será iniciar bilateralmente “conversações sobre conversações”, sem precondições. O objetivo seria esclarecer as políticas de cada país, discutir em que pontos é possível se chegar a compromissos e o que cada lado considera inegociável, preparando-se o terreno para negociações.

O ideal é que isso seja feito em reuniões de bastidores entre diplomatas, semelhantes aos contatos iniciais entre funcionários americanos e iranianos que duraram meses e acabaram levando ao acordo nuclear com Irã, em 2015. Dada a atual atmosfera de crise, deveríamos acelerar o processo designando um alto enviado presidencial para trabalhar com o Departamento de Estado e funcionários norte-coreanos do alto escalão. 

Desnuclearização. Uma Península Coreana sem armas nucleares deveria ser a prioridade dos EUA. O governo Trump quer que isso ocorra imediatamente, enquanto especialistas argumentam que tal imediatismo deveria ser deixado de lado por total impossibilidade. Não concordamos com nenhuma das duas posições. Os EUA têm de ser realistas. Desnuclearização não se dá da noite para o dia. Precisa ser vista como meta de longo prazo, uma abordagem que os norte-coreanos já deram a entender que aceitam. Em vista da crescente confrontação e da falta de confiança mútua, os EUA devem buscar uma aproximação para reduzir as tensões e garantir o caminho para negociações formais. 

Um primeiro passo essencial é uma imediata moratória nos testes nucleares e de mísseis norte-coreanos, que agravam as tensões. Em troca, os EUA e a Coreia do Sul deveriam aplacar as preocupações norte-coreanas ajustando um pouco suas manobras militares conjuntas, ou, talvez, acenando com um alívio nas sanções econômicas. 

Mas nada disso será alcançado fora da atmosfera política apropriada. Os norte-coreanos estão confusos com a falta de coerência política americana. As ameaças de Trump só aumentam os riscos de interpretações erradas. Trump poderia começar a reduziras tensões se declarasse claramente que o engajamento diplomático com Pyongyang é a escolha prioritária de seu governo.

Os EUA têm de entender que falar em opções militares não enfraquece, mas fortalece, a disposição de Pyongyang de resistir. Considerando-se o risco de uma guerra nuclear, pode ser um erro grave. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

SÃO JORNALISTAS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.