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Criminosos ameaçam população em bairros venezuelanos para enterrarem seus líderes

Grupos exigem que as pessoas fiquem em casa e fechem comércios enquanto protestam ou velam ex-integrantes mortos 

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O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2016 | 12h24

CARACAS - Grupos armados ordenam que os cidadãos deixem as ruas e paralisam bairros inteiros na Venezuela para realizar velórios de seus líderes mortos e protestar contra supostas execuções da polícia. Desde o final de janeiro, essa cena de intimidação ocorreu pelo menos duas vezes.

No dia 4, o norte da cidade central de Maracay amanheceu cheio de folhetos que advertiam que ninguém devia circular pois no dia anterior um jovem havia sido supostamente executado pela Polícia Científica (CICPC). Os pais então correram para buscar seus filhos nas escolas antes da hora de saída e as lojas fecharam suas portas - os folhetos alertavam sobre "as consequências" de quem descumprisse as ordens.

O texto fala de José Gabriel Álvarez Rojas, conhecido como "El Chino Pedrera", suposto líder de um grupo criminoso que liderava em uma prisão do Estado de Aragua.

O panfleto, anônimo, pede que o governador de Aragua, Tareq el Aissami, "tome medidas" e afirmar que "os principais corruptos do Estado são os próprios órgãos de segurança", pois não levam em conta os "trabalhos sociais e doações" que o grupo que escreve a carta supostamente realiza diariamente. "Aqui no Estado de Aragua vamos fazer bem aos nossos entes queridos e se vocês querem despertar um monstro, nós estaremos aqui para lutar", finaliza o texto.

Prisão. O outro caso de intimidação por parte desses grupos criminosos ocorreu em 25 de janeiro na cidade de Porlamar, pertencente à Ilha Margarita, onde um grupo de presos prestou homenagem a seu ex-líder Teófilo Cazorla, conhecido como "El Conejo", que morreu baleado quando saía de uma boate.

Enquanto os presos disparavam para o ar com armas longas e pistolas, no interior da prisão, no dia seguinte à morte de Cazorla, parte do grupo exigiu dos moradores que não saíssem nas ruas para que o caixão com o morto pudesse circular pela cidade.

A oposição política ao chavismo, que agora tem maioria no Parlamento do país, anunciou que abriria uma investigação pelo fato de os presos possuírem armas de guerra e solicitou a interpelação do ministro da Defesa, Vladimir Padrino.

Para o diretor do Observatório Venezuelano de Violência (OVV), Roberto Briceño León, "o nível de organização do crime na Venezuela está substituindo o Estado em alguns territórios". O diretor afirmou que os grupos são organizados porque contam com o financiamento que lhes permite ter "uma força" de até 600 homens em alguns casos, além de armas e controle sobre o território.

"Em Maracay, a princípio, eles não ferem ninguém, não matam ninguém, mas todo mundo fica em casa, assim eles demonstram que têm o controle, o território, e afinal de contas representam ali mais que o próprio Estado", explicou. Segundo o especialista, nas prisões "são organizados delitos, mandos de sequestros e cobrados resgates".

Além disso, os assassinatos de policiais são cada vez mais frequentes na Venezuela, disse o diretor do OVV, que também reconhece que estão acontecendo "muitas execuções" de criminosos por parte dos funcionários de segurança.

A organização OVV apresentou em dezembro do ano passado um relatório no qual afirma que a Venezuela registrou em 2015 o número recorde de 27.875 mortes violentas, o que significa uma taxa de 90 por cada cem mil habitantes.

Fontes oficiais reduzem significativamente os números. Segundo a procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, em 2015 a taxa de homicídios foi de 58,1 por cada 100 mil habitantes, ou seja 17.778 mortos. /EFE

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