REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Disputa por comida agrava violência na Venezuela, que tem 73 mortes por dia

ONG estima mais de 26 mil homicídios em 2017, um índice de 89 assassinatos por 100 mil habitantes, o que coloca país entre os mais violentos do mundo; principais causas são a queda da qualidade de vida e a deterioração do Estado de Direito

O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2017 | 21h39
Atualizado 29 Dezembro 2017 | 01h00

CARACAS - A grave crise econômica e a escassez de alimentos mantiveram os índices de violência na Venezuela entre os mais altos da América Latina em 2017. Segundo levantamento anual divulgado nesta quinta-feira, dia 28, pelo Observatório Venezuelano de Violência (OVV), no ano passado, 26.616 pessoas foram assassinadas, uma taxa de 89 vítimas a cada 100 mil habitantes – a segunda maior da América Latina, atrás apenas de El Salvador.

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Do total de mortes, segundo o Relatório Anual de Violência 2017, 16.046 correspondem a homicídios – 5.535 a assassinatos por resistência à autoridade e 5.035 mortes ainda sob investigação. O número de homicídios ficou praticamente estável em relação ao ano passado, com uma queda de 3%. Ainda assim, foram mais de 73 mortes por dia.

Em 2017, três fatores foram determinantes para a violência na Venezuela, segundo o relatório: a queda vertiginosa da qualidade de vida dos venezuelanos, a dissolução sistemática do estado de direito no país e o aumento da violência e da repressão por parte do Estado. 

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“Aumentou a violência entre os cidadãos. Há uma nova forma de criminalidade, inédita no país, vinculada à agressividade pela concorrência por bens e serviços, à fome e à escassez de bens e produtos alimentares”, afirmou o sociólogo Roberto Briceño-León, diretor da OVV. 

“O mais espantoso dos dados de 2017 são as causas de algumas das mortes, provocadas por disputas por alimentos e até entre integrantes da mesma família”, disse Briceño-León. “Muitas vezes, essas disputas familiares levam à violência doméstica, quando os membros da família discutem pelos poucos alimentos que há no lar, o que tem levado à situações difíceis, duras e à algumas mortes violentas.”

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Segundo a OVV, a grave crise institucional também ajuda a aprofundar a violência. “A Venezuela passou a ser um país que tem duas assembleias nacionais (o Parlamento e a Constituinte), dois ministérios públicos e dois supremos tribunais de justiça”, diz Briceño-León. “Passou a haver dois mecanismos para produzir normas e leis. É uma sociedade que não tem mecanismos de controle civilizado da violência.”

A prova disso, segundo ele, é o alto número de mortes por resistência à autoridade. O estudo indica que, em média, a cada semana, morrem 106 pessoas por ações de policiais ou militares. Em contrapartida, ao menos 438 agentes de segurança foram assassinados em todo o país. “Se os bandidos matam os policiais, os policiais vão matar os delinquentes”, afirmou o diretor da OVV. “A cifra deixa claro que os policiais não confiam no Judiciário da Venezuela e fazem justiça com as próprias mãos.”

Crítica. O governo venezuelano criticou o levantamento e divulgou os dados oficiais de homicídios no país nesta quinta-feira, dia 28, quase ao mesmo tempo que a OVV. Por meio de sua conta no Twitter, o ministro venezuelano do Interior e Justiça, Néstor Reverol, afirmou que 14.389 pessoas foram assassinadas em 2017 – uma taxa de 46,4 mortos por cada 100 mil habitantes, quase a metade do índice registrado pela OVV. “Conseguimos reduzir os delitos em 20,9% e continuaremos a trabalhar arduamente para reduzir a violência no país”, escreveu Néstor. / AFP, EFE e REUTERS 

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