Jean-Christophe MARMARA/Le Figaro
Jean-Christophe MARMARA/Le Figaro

Crise econômica e imigração trazem favelas de volta à paisagem da Europa

Após anos de estagnação, agravados pela chegada desordenada de imigrantes, pequenos conglomerados de casebres se proliferam nas principais cidades de países como França, Alemanha e Espanha

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 05h00

Marcu vive a 40 minutos da Torre Eiffel, na periferia de Paris. Com mulher e filhos, divide com um grupo de 15 famílias um terreno de chão batido em meio a uma mata do município de Champs-sur-Marne, leste da capital. Não há água encanada, eletricidade ou aquecimento. Quando faz frio, acende uma fogueira com os amigos e encerra seu dia de coleta nas lixeiras da cidade de uma das regiões mais ricas do mundo. 

Décadas após o desaparecimento quase completo das favelas, o aumento do nível de pobreza nos últimos dez anos, causado pela crise econômica na zona do euro e pela imigração, vem trazendo de volta as moradias precárias a países como França, Alemanha e Espanha. Em território francês, segundo levantamento da ONG Socorro Católico, 16 mil pessoas vivem em barracos em Paris e outras cidades. 

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A situação é muito distante da vivida no Brasil, mas deixou de ser inimaginável. Na França, estudos indicam a existência de 570 favelas. Dessas, mais de 100 estão localizadas em terrenos baldios ou em matas da Ile-de-France, a região da capital, e são ocupadas por grupos pequenos de casebres. 

Uma exceção era a favela erguida durante um ano em linhas de trens desativadas no 18.º distrito, no nordeste da capital. Demolida há dez dias pela prefeitura, que limpou a área pela quarta vez, somava mais de 400 pessoas que viviam entre lixo e ratos no interior de Paris, onde o metro quadrado é um dos mais caros do mundo.

Livre circulação. Como Marcu, metade dos moradores das favelas francesas é de origem romani ou búlgara. Imigrantes vindos para a Europa Ocidental da Romênia ou da Bulgária, vivem em situação legal no país graças ao Espaço Schengen, de livre circulação de pessoas na União Europeia. 

Mas, com frequência, não falam francês ou inglês e se comunicam mal, o que dificulta a obtenção de emprego. Por razões culturais, muitos de seus filhos não vão à escola e são usados para recolher esmolas em linhas de metrô e nas ruas de Paris. “Vivemos assim porque não temos outro jeito”, explica Marcu, misturando línguas e gestos para se fazer compreender. 

Em outra favela da região metropolitana visitada pelo Estado nesta semana, em Choisy-le-Roi, no sudeste de Paris, a situação é menos precária, mas nem por isso menos dramática. 

Instalados em trailers após invadirem um terreno asfaltado, situado às margens de um rio e sob o viaduto de uma estrada, 5 famílias e cerca de 20 pessoas, quase metade delas crianças em idade escolar, vivem em meio ao lixo. 

Seus moradores, também de origem romani, são hostis a estranhos que entram na área que ocupam, com medo de advertências das autoridades e da polícia. Para falar à reportagem, pedem dinheiro em troca e, diante da negativa, só aceitam conversar quando imaginam poder vender eletrodomésticos e eletrônicos, cuja origem não explicam. “Quer máquina de lavar ou TV de plasma?”, pergunta um deles. 

Eszter, uma jovem que vive com o marido, a mãe e três filhos em um trailer de uma única peça, conta que sua família vive com cerca de € 500 por mês. 

Os moradores, diz ela, não têm a intenção de deixar o terreno, mesmo que a prefeitura da cidade lhes ofereça um abrigo em centros de acolhimento ou uma moradia. Viajantes, prezam a mobilidade e não abrem mão do estilo de vida nômade, que prejudica ou até inviabiliza a escolaridade dos pequenos – perpetuando a miséria. “Estamos bem aqui”, resume ela, fazendo um gesto com as mãos sobre onde deseja viver. “O único problema é o frio.”

De acordo com a presidente da região de Ile-de-France, Valérie Pécresse, o entorno de Paris vive uma situação de calamidade em parte causada pela chegada desordenada de imigrantes. Os oriundos de países da União Europeia não têm direito a status de refugiados políticos, e logo não têm renda garantida pelo Estado. “A cota de alerta já foi claramente ultrapassada. Hoje, temos mais de cem favelas na região de Ile-de-France”, afirmou Pécresse, em entrevista à rede de TV CNews.

Membro do partido Republicanos, de direita, Valérie Pecrèsse defende o retorno das famílias de fora do Espaço Schengen a seus países de origem, uma alternativa para criar leitos disponíveis nos centros de acolhimento. “A questão é como podemos acompanhar até seus países todos os estrangeiros em situação irregular que hoje superlotam os centros de alojamento de urgência”, diz a presidente.

Para ONGs, a política em prática em Paris e na região metropolitana, de promover a desocupação das áreas habitadas de forma ilegal, não é a solução definitiva para o problema. “Essas soluções não são adaptadas aos projetos das pessoas”, argumenta Florian Huyghe, da Fundação Abbé Pierre, que trabalha no apoio a populações carentes. 

Longe de ser um problema exclusivo da França, a multiplicação de pequenas favelas vem se tornando uma questão europeia. A maior favela da Europa, Cañada Real Galiana, se situa na periferia de Madri, na Espanha, e tem mais de 8 mil moradores – sul-americanos, marroquinos e romanis, na maioria – em condições insalubres. O local se transformou também em um importante ponto do tráfico de drogas na Espanha. 

Em menor dimensão, favelas surgiram também na Alemanha, em pleno Parque Tiergarten, no centro de Berlim, e até na Suécia, onde a chegada de romanis e de búlgaros, nos últimos três anos, ainda não foi totalmente absorvida pelos serviços sociais. 

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