Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Crise na Venezuela leva a explosão de casos de malária na fronteira com o Brasil

País registrou 136 mil casos da doença em 2015 - ainda não há dados oficiais de 2016 -, aumento de 368,9% em comparação com 2000; deterioração dos serviços de saúde e crescimento da mineração teriam motivado aumento no contágio

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 11h32

GENEBRA - Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que os casos de malária na Venezuela aumentaram em mais de quatro vezes nos últimos 15 anos e, hoje, já ameaçam cruzar a fronteira com o Brasil e outros países da região. 

As informações oficiais da entidade apontam que, em 2000, um total de 29 mil casos foram registrados por testes laboratoriais no país. Em 2015, o número de casos saltou para 136 mil, aumento de 368,9% no período - enquanto o restante do mundo registrou queda de 62%. 

Estima-se que em 2016 os casos de malária na Venezuela tenham passado dos 140 mil, mas ainda não há dados oficiais. Os registros representam o maior nível de incidência da doença desde que os dados começaram a ser coletados, há 76 anos. 

Para David Schellenberg, conselheiro científico do Programa Global de Malária da OMS, o salto no número de casos aumenta o risco de que a doença ganhe força além das fronteiras. Questionado pelo Estado, ele confirmou a possibilidade de o Brasil ser atingido. "Existe a preocupação de que possa ir além das fronteiras", disse.

Em 2016, 80% dos casos de malária registrados na Venezuela ocorreram no Estado de Bolívar, na fronteira com o Brasil. 

Entre funcionários da OMS, o temor é de que os números reais de casos de malária na Venezuela sejam ainda maiores. Os dados com os quais a entidade trabalha são fornecidos pelo próprio governo de Nicolás Maduro e não passam por qualquer tipo de auditoria nem na Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e nem na OMS. 

Pelos dados da Opas, os casos confirmados de malária no Brasil caíram de 600 mil em 2005 para 140 mil em 2015, uma das maiores reduções registradas num país em desenvolvimento.

Passado distante. Em 1961, a Venezuela foi qualificada pela agência da ONU como o primeiro país do mundo a erradicar a malária. Os especialistas apontam para dois fenômenos nos últimos anos que contribuíram com o atual cenário: a deterioração dos serviços de saúde e a onda de pessoas buscando alternativas econômicas e trabalhando em minas de ouro.

No caso da malária, a prevenção é considerada como uma das medidas mais eficientes. Sem recursos, porém, o serviço de saúde venezuelano teria feito cortes importantes no orçamento. 

Dados obtidos pelo Estado revelaram que em 2009, 1,4 milhão de residências foram alvo de ações do Ministério da Saúde para conter o mosquito, especialmente com spray. Em 2016, esse número caiu para apenas 68 mil casas. As mortes passaram de 9 casos em 2008 para 69 em 2015. 

Além disso, se em 2010 o governo venezuelano destinou US$ 12 milhões para lidar com a malária, o orçamento em 2012, 2013 e 2014 para a prevenção da doença ficou abaixo de US$ 1 milhão. 

Outro fenômeno que agravou a crise foi o fluxo de mais de 50 mil venezuelanos para áreas de mineração, justamente as mais afetadas pelos mosquitos. Com a crise econômica, a busca pelo ouro voltou a ser uma opção para parte da população. No entanto, ao retornarem para centros urbanos, muitos estão contaminados e não contam com medidas de prevenção. 

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