AFP PHOTO / PRESIDENCIA
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Crise na Venezuela revela declínio da influência americana

Chávez e Maduro usaram “o império” como desculpa para a repressão e os EUA nada fizeram para proteger os venezuelanos

Jackson Diehl / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2017 | 05h00

A vertiginosa descida da Venezuela para o caos tem levado frequentemente analistas como eu a predizer que o autoritário regime populista fundado por Hugo Chávez está condenado ao colapso, ou à deposição. O fato de isso ainda não ter acontecido diz muito de como o atual ambiente latino-americano é diferente, e pior, do que foi em qualquer outra ocasião do século passado. E pode estar dizendo ainda mais sobre a mudança do papel global dos Estados Unidos.

Na semana passada, Caracas parecia novamente uma capital à beira da revolução. Nuvens de gás lacrimogêneo e balas de borracha dominavam ruas, enquanto dezenas de milhares de jovens desafiavam o governo de Nicolás Maduro. As causas da ira popular são muitas: a gritante ruptura de Maduro com as normas democráticas; uma escassez tão severa de alimentos que três quartos dos venezuelanos perderam peso; uma repressão brutal; índices de inflação e homicídios mais altos do mundo.

Mais uma vez, observadores internacionais previram que os dias de Maduro no poder estão contados - ou ele concorda com a exigência oposicionista de convocar eleições ou um grupo de generais patriotas o afasta do poder em nome da restauração da ordem. Talvez desta vez estejam finalmente certos. Mas a Venezuela vem se mostrando notavelmente resistente aos mecanismos de segurança que normalmente interrompem a queda de um país de renda média. Na verdade, a Venezuela está se mostrando cada vez mais um Zimbábue do Hemisfério Ocidental - uma ditadura depravada na qual não há miséria que chegue para levar ao ponto de ruptura.

Por que acontece isso? Em grande parte, essa é a história de um regime único, corrupto e isolado. Funcionários de alto escalão e oficiais estão envolvidos até o pescoço com o tráfico internacional de drogas e o loteamento da indústria de petróleo. Uns poucos, incluindo o vice-presidente, já foram apontados como chefões do narcotráfico pelo Departamento do Tesouro americano. Para esses, perder o poder significaria a prisão. Enquanto isso, os serviços de inteligência e segurança estão cheios de agentes de Cuba, país que conseguiu fazer de uma nação da Opep, com três vezes a população cubana, um Estado-cliente. Pela lógica do regime dos Castros, ser um pária internacional é sempre preferível a fazer concessões políticas domésticas.

Mas a Venezuela também revela um pouco do declínio da liderança americana. Nos últimos cem anos, a concepção dos EUA de sua missão internacional incluía a determinação de não permitir que outro país do Hemisfério Ocidental tomasse caminhos diferentes. Isso, às vezes, levava a sujos e mal concebidos atos imperialistas, como encorajar golpes militares ou enviar fuzileiros navais. Em anos recentes, traduziu-se com maior frequência no uso de pressão econômica e militar para forçar mudanças democráticas - como na Nicarágua e em El Salvador, no final dos anos 80, ou para salvar uma democracia em colapso, como na Colômbia, depois de 2000.

Os venezuelanos - a começar por Chávez - sempre estiveram meio à espera de uma intervenção de Washington na confusão do falso socialismo que ele criou após 1998. Hoje, Maduro anuncia sem parar que uma invasão americana é iminente. A verdade é o contrário. Por três governos - quatro, se contarmos a ainda iniciante equipe de Donald Trump -, a política dos EUA tem sido a de evitar a menor sombra de intromissão na Venezuela, pois isso apenas beneficiaria os chavistas ao permitir que retratem Washington como inimigo.

De qualquer modo, Chávez e Maduro usaram “o império” como desculpa para a repressão - enquanto isso, os EUA nada fizeram para proteger os venezuelanos da catástrofe política e econômica. Não só evitaram qualquer ação militar - isso nunca foi considerado -, como não houve sanções econômicas sérias, nem quando generais venezuelanos começaram a despachar aviões carregados de cocaína para os EUA. Também não houve tentativas reais de reunir vizinhos da Venezuela para aplicar sanções ao país.

“Durante a última década, ou até antes, trabalhamos com a teoria de que um esforço consciente de adotar uma abordagem liberal encorajaria outros a preencher o vazio de liderança regional”, diz Eric Farnsworth, do Conselho e Sociedade das Américas. “Mas uma região que põe o princípio da soberania acima de tudo não tem intenção de influir na Venezuela, exceto para manter os EUA fora da confusão política.” Assim, um país que já foi aliado dos EUA e o mais rico da América Latina pode continuar assolado durante anos pela violência e fome enquanto uma ex-superpotência finge que não vê. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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