Cristina apela por união para evitar derrota

Rodrigo Cavalheiro

O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2015 | 02h01

CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

A seis semanas de deixar o poder, a presidente Cristina Kirchner discursou atipicamente por três horas na Casa Rosada, em um comício improvisado no qual apresentou como concreta a possibilidade de uma vitória da oposição e pediu uma reação da militância. Ela pediu o fim da divisão kirchnerista em torno do candidato Daniel Scioli, que no dia 22 enfrenta o conservador Mauricio Macri. O ato teve tom de despedida.

"Posso ser algumas vezes bruta, arrogante, mas falo agora com total falta de interesse pessoal. Não sou candidata a nada, em 10 de dezembro vou para casa. Mas, quando for para casa, não quero que desmorone tudo o que levamos anos para construir", afirmou, quase chorando, em um dos quatro discursos feitos em diferentes salões da Casa Rosada.

Cristina partiu para o confronto direto com Macri. Argumentou que o país não escolherá entre partidos, mas entre dois modelos. "Gostaria que o debate agora não fosse sobre palavras, mas considerasse a posição que cada um teve no passado recente".

Ela citou votos da oposição contra o casamento gay, a nacionalização da Aerolíneas Argentinas e da petrolífera YPF. Também lembrou que Macri defendeu o pagamento integral aos chamados fundos abutres, credores que não aceitam a renegociação da dívida argentina e querem o valor total de seus títulos. "Devemos à cidadania não só palavras. Que ninguém se disfarce do que não é. Nós, com nosso erros, somos o que somos."

Cristina atacou a candidata a vice na chama adversária, Gabriela Michetti, que se disse em entrevista arrependida de ter votado contra o casamento gay, aprovado em 2010. "Não basta dizer me arrependo. Você se arrepende, mas f... a vida de 40 milhões de argentinos. Desculpem o termo pouco acadêmico, mas para defender os argentinos sou capaz de qualquer coisa", disse Cristina.

No domingo, Scioli obteve 36,8% dos votos e Macri alcançou 34,3%. Para vencer no primeiro turno, como esperava, precisaria ter atingido 40% dos votos e aberto 10 pontos de diferença sobre o segundo.

Uma vantagem do opositor é contar com o apoio tácito do terceiro colocado, o ex-kirchnerista Sergio Massa, que conseguiu 21,3%. Questionado sobre seu voto, ele respondeu: "Não quero que Scioli vença". Pesquisas apontam que 60% de seus eleitores iriam para Macri, o que permitiria o triunfo conservador.

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.