Cristina e Scioli desafiam lei eleitoral

A legislação eleitoral argentina proíbe desde sexta-feira a presidente Cristina Kirchner de inaugurar obras públicas ou anunciar projetos de governo. Isso não a impediu de fazer justamente o que a norma pretendia coibir: campanha por Daniel Scioli, a 11 dias da eleição, seu escolhido para a sucessão presidencial.

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2015 | 02h01

"Posso falar porque não sou candidata", disse antecipando-se a críticas da oposição, ao iniciar o ato de abertura ou ampliação de quatro fábricas, uma pessoalmente e três por videoconferência. A legislação proíbe a publicidade de atos de governo a menos de 15 dias da votação.

Ao lado de Scioli e de Carlos Zannini, candidato a vice pela coalizão kirchnerista, a Frente pela Vitória, a presidente em certos momentos tentou tocar sutilmente temas eleitorais. "É um dia de ampliação de direitos, porque quando ampliamos uma fábrica ampliamos direitos", afirmou, referindo-se à criação de empregos.

Sua tática das inaugurações múltiplas por videoconferência foi comum durante todo o ano. Normalmente, antes das cadeias nacionais que ganharam a frequência de uma por semana, Cristina anunciou desde janeiro fábricas novas ou ampliações de linhas de produção de chicletes, cosméticos, soda cáustica e autopeças, entre outras.

Tática. Em geral, os investimentos privados eram misturados à inauguração de algum laboratório ou hospital público. Quando a transmissão em rede nacional por rádio e TV começava, ela mencionava os dados das inaugurações transmitidas anteriormente apenas pela televisão pública e dedicava-se a atacar a oposição.

Desta vez, ela não convocou cadeia nacional - a de sexta-feira foi a 44.ª em 43 semanas. Na fábrica da L'Oreal, em Garín, foi praticamente uma garota-propaganda, discursando todo o tempo diante de duas mesas com xampus, condicionadores e tonalizantes cujas caixas tinham o rosto de modelos com a mesma cor de seu cabelo. O ato foi transmitido pela TV pública, com a legenda "Scioli e Cristina em Garín".

Já sem tanto cuidado para não parecer em campanha, a presidente disse estar convencida de que os argentinos seguirão apostando em transformação. "Ninguém vota contra si", afirmou. "Estamos numa grande batalha. Não acreditem nos que dizem que se constrói com risinhos e um tapinha nas costas. É preciso firmeza para ser presidente, não é para qualquer um", completou, dando a deixa para a fala de Scioli.

"O verdadeiro voto útil é a favor do país, não contra alguém", disse o candidato. Ele se referia à disputa entre seus dois principais rivais, o conservador Mauricio Macri e o ex-kirchnerista Sergio Massa, pela chance de chegar a um segundo turno. Prefeito de Buenos Aires, o segundo colocado Macri afirma que o "voto útil" é impedir que o kirchnerismo vença dia 25, em primeiro turno.

Segundo a última pesquisa do instituto Poliarquía, Scioli tem 37,1%, Macri está com 26,2% e Massa alcança 20,1%. A eleição se define sem segundo turno caso o primeiro colocado atinja 40% dos votos e abra 10 pontos do segundo.

Macri começou no domingo a convocar todos os eleitores de outros opositores a trocar de escolha já no primeiro turno, sob risco de ver o kirchnerismo "se perpetuar". Massa argumenta ser ele quem representa o voto útil, pois teria mais chance no segundo turno contra Scioli. Pesquisas indicam que o fluxo de votos de Macri para ele numa hipotética segunda votação, em 22 de novembro, é maior do que o contrário.

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