Cristina transforma em comício último discurso a políticos

Líder argentina atribui ao Judiciário a culpa pelo pouco avanço no caso Amia e critica a não aplicação da Lei de Mídia contra o Grupo Clarín

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

02 Março 2015 | 02h01

A presidente Cristina Kirchner começou com um balanço de oito anos no poder seu último discurso no Congresso, mas transformou o ato de ontem em comício ao ver entre os parlamentares cartazes mencionando o atentado de 1994 contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia). Ela criticou então o Judiciário, o promotor Alberto Nisman e o governo de Israel.

Depois de dizer que lamenta a morte de Nisman como "a de qualquer ser humano", a presidente contestou a denúncia feita por ele quatro dias antes de ser encontrado morto em seu apartamento em Buenos Aires, em 18 de janeiro. Afirmou que Nisman, em documento achado em seu cofre, demonstrava intenção de levar o caso ao Conselho de Segurança da ONU. Em um parágrafo, ele elogiava o esforço da presidente no caso.

"Ele escreveu isso em dezembro. Em janeiro, faz uma denúncia contra mim e o chanceler (Héctor Timerman), uma acusação na verdade contra a Argentina. Porque até 10 de dezembro (quando toma posse o novo presidente) somos os representantes deste país", afirmou, ressaltando não saber "em que Nisman acreditava".

O promotor morto dizia ter provas de que Cristina e outros kirchneristas haviam usado um acordo com o Irã para proteger acusados do atentado, por razões comerciais. Um juiz decidiu na quinta-feira que não havia elementos para investigar a presidente por essas acusações.

Cristina atribuiu ao Judiciário a culpa pelo pouco avanço na investigação do atentado contra a associação judaica, que matou 85 pessoas. "Passaram-se 21 anos e não há um só preso", criticou.

Cristina também contestou o governo israelense, que a seu juízo não exige com a mesma ênfase a busca de culpados pelo ataque de 1992 à Embaixada de Israel em Buenos Aires, quando morreram 29 pessoas. Ao atribuir à Corte Suprema falhas nesse caso, câmeras internas mostraram o presidente do tribunal, Ricardo Luis Lorenzetti, com semblante constrangido.

Para Luis Czyzewski, pai de Paola, uma vítimas do atentado à Amia, a responsabilidade por descobrir a verdade é "de todos os poderes". "Não ajuda nada um ficar criticando o outro. Isso deve ir além de um partido sair bem ou mal de uma acusação", afirmou ao Estado.

Cristina seguiu atacando a Justiça para cobrar a aplicação da Lei de Mídia contra o Grupo Clarín, que obrigaria a empresa a se desmembrar. "A lei não é aplicada porque existe um tipo de Justiça cautelar 'delivery'. O 'Partido Judicial' ficou independente, mas da Constituição", acusou. O opositor Ernesto Sanz, da UCR, afirmou que nunca houve um discurso tão duro contra a Justiça. "O estranho é que os juízes são os mesmos de outros anos. Então deduzo que o problema não é a Justiça, é que agora o governo está sendo investigado."

"Foram dois discursos. Um início cheio de números e outro com Cristina mais Cristina do que nunca. Ela buscou o confronto, enquanto alguns esperavam um aceno à oposição", disse ao Estado o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires (UBA). "Parece que ela tentará manter o mesmo nível de poder até os últimos dias. Por isso a forte convocação à militância", avalia De Angelis.

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