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Entrevista. Ricardo Zuniga, cônsul-geral dos EUA em São Paulo

Para diplomata que participou de diálogo entre Washington e Havana, visita de Obama terá impacto ‘histórico’

Cuba não mudaria com mais isolamento

- Atualizado:12 Março 2016 | 17h 38

MIAMI - Dentro de oito dias, Barack Obama se tornará o primeiro presidente americano a colocar os pés em Cuba em 88 anos. A visita não tem paralelo na história e será “única” por seu simbolismo e impacto, avalia Ricardo Zuniga, que durante 18 meses participou das negociações secretas que levaram ao anúncio do restabelecimento de relações diplomáticas entre os países, no dia 17 de dezembro de 2014.

“Quando começamos as conversas, em junho de 2013, nós não tínhamos ideia de onde elas nos levariam. Parecia muito improvável ter progresso significativo e assistir à primeira visita de um presidente dos Estados Unidos a Cuba de que se tem memória”, disse Zuniga ao Estado

Novos tempos em Cuba
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Cubanos acessam sinal de internet em um dos 35 pontos de Havana que têm Wi-Fi; apesar de ter sido reduzido, preço é muito alto

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No ano passado, o diplomata deixou a função de conselheiro para as Américas da Casa Branca e assumiu o comando do Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo. A seguir, trechos da entrevista, concedida por telefone.

Quando as negociações com Cuba começaram, o sr. imaginava que veria uma visita do presidente Barack Obama a Havana?

Não. Quando começamos as conversas, em junho de 2013, nós não tínhamos ideia de onde elas nos levariam. Parecia muito improvável ter progresso significativo e assistir à primeira visita de um presidente dos Estados Unidos a Cuba de que se tem memória.

Em que momento o sr. percebeu que as negociações levariam ao restabelecimento de relações diplomáticas?

Nós tivemos 18 meses de conversas diretas e só no final do processo houve sinais de que teríamos mudanças significativas na relação bilateral. Nós estávamos buscando duas coisas. A primeira era uma solução para o caso de Alan Gross (americano preso na ilha e libertado após a retomada das relações bilaterais) e de um ativo de inteligência que estava na prisão em Cuba e era importante para os Estados Unidos. Nós vimos isso como uma possibilidade de abrir espaço para mudanças mais fundamentais. As negociações continuaram até algumas semanas antes do anúncio dos presidentes, no dia 17 de dezembro de 2014.

Houve momentos em que o sr. temeu o fracasso das conversas com os cubanos?

Nós tínhamos mais de 50 anos de relações bilaterais muito difíceis e havia áreas em que tínhamos diferenças significativas, como direitos humanos. Ainda estamos em um período de construção de confiança entre nossos governos e de definição da melhor maneira de administrar essas diferenças. 

Quando o sr. percebeu que as conversas teriam resultados?

Houve uma sucessão de encontros, em junho e julho de 2014, em que conseguimos progresso real. Naquele período, as duas delegações foram orientadas pelos dois presidentes a encontrar uma solução. Mas só quando tivemos um encontro no Vaticano, em outubro de 2014, é que tivemos certeza de que seríamos capazes de fazer o anúncio que fizemos em dezembro – a troca de prisioneiros e de espiões, as novas políticas e a nova abordagem de ambos os lados, que incluía o restabelecimento de relações diplomáticas.

O papa Francisco participou dessa reunião?

Havia representantes do Vaticano. O presidente havia visitado o papa em março de 2014 e uma das questões sobre as quais conversaram foi Cuba. O Vaticano atuou como um mediador honesto, uma testemunha. Os Estados Unidos e Cuba estavam assumindo compromissos mútuos, mas havia um elevado grau de incerteza sobre a relação e era importante ter um outro ator. No verão de 2014 (meados do ano nos EUA), o papa enviou cartas aos dois presidentes manifestando a disposição do Vaticano de auxiliar nas negociações. Era uma indicação de que se cada lado mostrasse o que estava disposto a fazer na frente dos representantes do papa, nós poderíamos ter confiança de que os compromissos assumidos seriam cumpridos. 

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O que o presidente espera obter com a visita?

O presidente promoveu essas mudanças porque se convenceu de que havia chegado o momento de os Estados Unidos mostrarem que estão do lado do povo cubano e faremos o que pudermos para ajudá-los a melhorar suas vidas e a ter maior controle sobre elas, por meio do aumento do fluxo de informação e de recursos diretamente para as mãos dos cidadãos em Cuba. Essa era um dos últimos resquícios da Guerra Fria. O presidente queria mostrar que os Estados Unidos podiam fazer grandes coisas e implantar uma política que olhe para o futuro, não para o passado. 

O sr. irá a Cuba?

Não tenho certeza ainda. Mas não estarei na delegação (de Obama). Agora, estou no Brasil e não estou envolvido diretamente nessa questão.

Mas seria uma visita muito emocional, não?

Esse será um evento incrível. Nós veremos grande ênfase nas fortes conexões culturais entre os Estados Unidos e Cuba, ao mesmo tempo em que falaremos dos temas que são importantes para os dois países. Será uma visita histórica. 

A que outra visita presidencial o sr. a compararia?

Será algo único, não há comparação. Pela conexão cultural entre os países, pelo que a visita significa para o relacionamento dos Estados Unidos com o resto das Américas, pelo que representa em termos simbólicos, tudo fará com que seja única. A conexão entre os cubano-americanos e os cubanos na ilha e a conexão cultural entre os Estados Unidos e Cuba darão um sabor especial à visita, que não se compara a nenhuma que já vi. 

Ben Rhodes, que participou das negociações com o sr., disse que o objetivo da Casa Branca é fazer com que essas mudanças sejam irreversíveis. Como é possível fazer isso se elas foram implantadas por decretos que podem ser anulados por um eventual presidente republicano?

Há um elevado grau de apoio à política do presidente dentro dos Estados Unidos, incluindo entre cubano-americanos, na população em geral e entre democratas e republicanos. Não é uma questão partidária. Há um amplo consenso nos Estados Unidos a favor de promover um ambiente mais aberto em Cuba usando as ferramentas que temos e deixando os próprios cubanos definirem seu futuro. 

Até onde essa política pode ir com o embargo em vigor?

O embargo se baseia em uma série de leis que restringem de maneira significativa o comércio entre os Estados Unidos e Cuba e a decisão sobre elas depende do Congresso.

Mas o governo cubano diz que o presidente Obama pode ir muito além no uso de decretos para suspender aspectos do embargo.

O presidente foi bastante longe no uso de sua autoridade executiva. Ele apoia a suspensão do embargo, mas continuaremos a aplicar a lei. Ao mesmo tempo, anunciamos uma sucessão de mudanças e de acordos com Cuba. O presidente usou sua autoridade, por exemplo, para facilitar serviços aéreos entre Cuba e os Estados Unidos. Teremos voos comerciais entre os dois países pela primeira vez em mais de 50 anos. 

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Os republicanos afirmam que Cuba continua a violar direitos humanos e a prender ativistas. O sr. vê um cenário no qual o Congresso levante o embargo sem que haja mudanças políticas em Cuba?

Não são apenas os republicanos que apontam violações de direitos humanos em Cuba. É o governo Obama, são os democratas e os americanos em geral. É claro que continuará a haver pressão por um ambiente mais aberto em Cuba. Mas é mais provável ter progresso por meio do engajamento do que do isolamento. Não conseguimos ver mudanças em Cuba seguindo a velha política externa.

Ricardo Zuniga foi diretor regional no Conselho de Segurança Nacional e comandou o Escritório para Assuntos de Cuba no Departamento de Estado antes de ser cônsul no Brasil. 

PARA LEMBRAR

Em dezembro de 2014, em um pronunciamento simultâneo, o presidente dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, anunciaram que os dois países estavam iniciando a retomada das relações após 50 anos de rompimento. A partir de então, representantes dos dois países iniciaram reuniões para acertar detalhes da retomada que levaram à reabertura das embaixadas em Havana e Washington. Depois de se reunir com Raúl no Panamá, Obama anunciou em abril a decisão de remover Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo. Apesar de o embargo econômico americano ainda prevalecer, os dois países vêm colecionando avanços também no setor privado, como a volta das ligações telefônicas diretas, retomada de voos diretos, entre outros. O ápice da reaproximação deverá ocorrer com a visita de Obama à ilha este mês, a primeira de um presidente americano em exercício em mais de 80 anos. 

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