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REUTERS/Enrique De La Osa

Cubanos dividem-se entre ceticismo e esperança

Muitos têm dúvidas sobre as reais intenções do governo americano, mas desejam mais liberdade em Cuba

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Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Miami e Havana,
O Estado de S. Paulo

19 Março 2016 | 18h00

MIAMI e HAVANA - Barack Obama e Raúl Castro voltarão a fazer história no domingo, 20, quando se encontrarão em Havana na primeira visita a Cuba de um presidente dos Estados Unidos em 88 anos. Mas para alguns dos personagens anônimos da conflituosa relação bilateral das últimas cinco décadas o novo tom amistoso provoca perplexidade, desconfiança e frustração.

Com 53 anos, Orlando Moya nasceu um pouco depois de seu país e os Estados Unidos romperem os laços diplomáticos, em 1961. Apesar de ser favorável à reaproximação e à visita de Obama, ele se declarou “abobado” com as mudanças anunciadas desde 17 de dezembro de 2014. Naquele dia, Obama e Raúl revelaram ao mundo que colocariam fim à animosidade que marcou o relacionamento bilateral nos 53 anos anteriores para buscar uma política de engajamento mútuo.

Moya tem dúvidas sobre as reais intenções dos EUA e teme que a reaproximação coloque em risco o que ele vê como conquistas do socialismo cubano, entre as quais o acesso gratuito à saúde e à educação ocupam os primeiros lugares. “Tenho cinco filhos e todos estudam. O mais velho, está para se formar em medicina e eu nunca tive de pagar para consultar um médico”, disse Moya ao Estado. “Quero ver para crer, pois os americanos sempre quiseram tirar vantagem.”

A 370 km de distância, em Miami, e do outro lado do espectro ideológico, José Azel foi mais enfático em sua rejeição ao processo de reaproximação entre os dois países. Professor de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade de Miami, ele estava com 13 anos quando deixou Havana no âmbito da Operação Peter Pan. Entre 1960 e 1962, cerca de 1,4 mil crianças saíram de Cuba com destino aos Estados Unidos com ajuda da Igreja Católica, enviadas por parentes que temiam perdê-los para o novo governo comunista.

Azel nunca mais viu seus pais nem voltou a Cuba. “Para minha geração, é muito doloroso ver a viagem de Obama a Cuba”, disse o professor durante encontro com jornalistas estrangeiros em Miami no dia 9. “Ela legitima uma ditadura brutal, já que visitas presidenciais são o mais elevado nível de engajamento diplomático entre países.”

Em Havana, o ex-militar Héctor Valdéz sofre por razões opostas. Aos 70 anos, ele nasceu antes da chegada de Fidel Castro ao poder, durante o regime de Fulgêncio Batista. Sua família era de classe média alta e Valdéz teve uma infância privilegiada. Ainda assim, ele abraçou o período iniciado em 1959. “Dediquei toda minha vida à Revolução”, disse no Parque Central de Havana, uma praça próxima do centro histórico da capital.

Valdéz tinha 15 anos quando exilados cubanos tentaram derrubar o regime comunista com apoio da CIA na Invasão da Baía dos Porcos. Como militar, disse ter experimentado muitas outras tentativas de desestabilização do governo cubano promovidas pelos EUA. Sua experiência marca a percepção que tem do atual processo de reaproximação. “A tática dos americanos mudou, mas seu objetivo continua o mesmo: acabar com o socialismo em Cuba.”

Apesar de seu compromisso com a revolução, Valdéz também tem desencantos com seu país. A corrupção e o abuso de poder pelos dirigentes comunistas estão entre os principais deles. Em sua opinião, o regime corria o risco de desmoronar mesmo antes do restabelecimento de relações diplomáticas com os EUA, em um movimento semelhante ao da ex-União Soviética.

O ex-militar gostaria de ver uma Cuba mais democrática, com eleições mais competitivas – ainda que sem a participação da “direita” –, imprensa livre, acesso à internet e manutenção dos serviços públicos de saúde e educação. Seu temor é que a reaproximação seja um “cavalo de Troia” dos EUA para acabar com o que resta do socialismo na ilha.

Lourdes Incer tinha 17 anos quando embarcou com os pais, a irmã e a avó em um barco de pesca na direção de Miami. A família havia permanecido seis dias no porto de Mariel, com pouca comida e sem banho, à espera da embarcação mandada por um tio que já estava na Flórida. Naquela semana de abril de 1980, 125 mil cubanos deixaram a ilha em travessias desesperadas para os EUA.

Chamados de modo depreciativo de “marielitos” pelos que ficaram, muitos deles começaram a fazer as pazes com seu país nos últimos anos. Dona de uma loja de charutos na Pequena Havana, em Miami, Incer ainda tem parentes na ilha, o que dá um tom contraditório à sua avaliação da reaproximação entre os EUA e Cuba. Ao mesmo tempo em que se entusiasma com a visita de Obama, ela diz que gostaria que ela ocorresse sem o regime dos Castro.

Ecoando uma crítica do oposicionista Partido Republicano - do qual é eleitora -, Incer também acredita que Obama deveria ter sido “mais firme” na negociação com Cuba. “Ele aceitou tudo sem ter concessões em troca.”

Moya tem motivos para se sentir “abobado”. Há menos de um ano, Cuba estava na lista americana dos países que patrocinam o terrorismo, ao lado de Irã, Sudão e Síria. Havana e Washington acumulavam 53 anos de rompimento de relações diplomáticas quando houve o anúncio histórico da decisão de encerrar o capítulo marcado pela Guerra Fria. O encontro de domingo de Obama e Raúl é o terceiro desde o anúncio de reaproximação e o primeiro em solo cubano.

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