Culto à memória da guerra

Em 13 de abril de 1975, irrompeu a guerra do Líbano. Entremeada de breves e enganosos períodos de tranquilidade, ela se prolongou por 15 anos, com 300 mil mortos, centenas de milhares de desalojados e a destruição quase total d a infraestrutura do país. Iniciada com os confrontos entre refugiados palestinos armados e milicianos cristãos, a guerra falsamente qualificada de civil deu lugar às intervenções dos Exércitos sírio e israelense e até de uma força multinacional dos EUA e países ocidentais.

Issa Goraieb*, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2016 | 03h00

Com a paz instaurada, os libaneses lembram regularmente, a cada ano, o triste aniversário de 13 de abril, com discursos solenes proferidos por dirigentes políticos apelando à harmonia, editoriais nos jornais e programas especiais, incluindo vídeos de arquivos em todos os canais de TV. Foi o que ocorreu na última quarta-feira, quando até dignatários religiosos representando as diversas comunidades libanesas rezaram juntos pela paz nas escadarias do museu nacional, situado na linha de demarcação que por um longo tempo separou os dois setores oriental (cristão) e ocidental (muçulmano) de Beirute.

Apesar de sua aparente fidelidade ao culto da terrível lembrança, é caso de perguntar se os libaneses, novamente divididos sobre quase todos os desafios com os quais o país se defronta, realmente aprenderam todas as lições da guerra. Essa trágica aberração, psicólogos e sociólogos libaneses qualificam como um bloqueio ou uma coagulação da memória. E explicam que isso se deve ao fato de que, terminada a guerra, novas violências ocorreram e vieram se juntar àquelas provenientes da guerra e as novas divisões se acrescentaram às já existentes no país. Não só as tensões comunitárias se intensificaram, mas ao antigo contencioso entre islâmicos e cristãos veio se juntar uma áspera rivalidade entre os dois campos sunita e xiita do islamismo, consequência de um fenômeno que vem afetando hoje diversas partes do Oriente Médio.

Seja o que for, só podemos nos assombrar diante da diversidade e da gravidade dos problemas enfrentados pelo Líbano. Adotada quando da conferência de Taëf, na Arábia Saudita, que pôs fim à guerra, a Constituição jamais foi aplicada na íntegra, e o ocupante sírio é que se encarregou de intermediar, à sua vontade, os desacordos que surgiam frequentemente entre o presidente da república, o primeiro ministro e o presidente da Assembleia, respectivamente um cristão maronita, um muçulmano sunita e um muçulmano xiita.

Com a retirada da Síria, as relações de força locais e regionais, menosprezando os textos fundamentais, passaram a impor sua lei à vida pública e ao funcionamento das instituições. Fato ilustrado de modo incrível pela incapacidade do Parlamento de eleger um presidente da república. 

Vimos o Hezbollah, aliado do Irã, usar suas armas para obter a anulação de um decreto do Conselho de Ministros. Durante meses, o próprio presidente da Assembleia proibiu qualquer reunião do Parlamento, em solidariedade aos ministros xiitas que se demitiram em bloco do governo. 

Chamando para si a decisão de paz ou de guerra, o Hezbollah, em 2006, iniciou um vasto e nocivo confronto com Israel. E, violando a posição oficial de neutralidade adotada pelo Estado libanês no conflito sírio, o mesmo Hezbollah enviou centenas de combatentes em socorro do regime de Bashar Assad, intervenção à qual os rebeldes islamistas responderam com uma onda de atentados com carros-bomba e incursões em território libanês.

Depois de atentar contra a segurança interna e das fronteiras, foi no âmbito da diplomacia libanesa que a milícia tentou interferir. Recusando-se a participar de resoluções árabes condenando as ações subversivas do Irã e do Hezbollah, o chanceler, que é um aliado da milícia, provocou uma importante crise com a Arábia Saudita e outros reinos do Golfo. 

Não só a Arábia Saudita congelou uma doação de US$ 4 bilhões para reequipar o Exército libanês com armamentos franceses, mas a inquietação tomou conta dos 300 mil libaneses que trabalham no Golfo e cujas remessas de dinheiro são um elemento básico da economia nacional.

A todas essas aflições acrescente-se, para o cidadão, uma corrupção cada vez mais vasta a ponto de a Justiça se declarar impotente para erradicá-la. É nesse ambiente que continua a vida quotidiana, num país onde estão reunidos todos os ingredientes para uma explosão que pode não ficar limitada ao âmbito social e político. Quantas vezes o famoso milagre libanês pode se repetir? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Issa Goraieb é colunista do Estado e jornalista radicado em Beirute

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