REUTERS/Jorge Silva
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Cúpula chavista tinha mais de US$ 2 bi em contas na Europa, diz investigação

Segundo o jornal ‘El País’, dinheiro seria resultado de suborno pago por empresas estrangeiras em troca de garantias de contratos com a PDVSA; vários centros financeiros europeus foram usados para camuflar negócios

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2017 | 22h51

GENEBRA - Bancos de Andorra e da Suíça foram utilizados por pelo menos cinco anos pela cúpula do então presidente Hugo Chávez (1999-2013) para desviar US$ 2,3 bilhões da Venezuela, segundo o jornal espanhol El País. O dinheiro viria de subornos pagos em troca de contratos entre empresas estrangeiras e a PDVSA, a estatal de petróleo do país.

Os dados revelados pelo jornal espanhol e confirmados nesta quinta-feira,14, pelo Estado indicam que o Banco Privado de Andorra, também envolvido em pagamentos de subornos da Odebrecht, foi o canal utilizado para parte dos pagamentos. Dali, o dinheiro seguia para a Suíça. A investigação, que já dura dois anos, agora permite refazer parte do caminho do dinheiro.

O Estado apurou que, em visita à Suíça, a ex-procuradora-geral da Venezuela Luisa Ortega Díaz tratou especificamente deste caso com os investigadores em Berna, em outubro. Depois da Suíça, ela viajou para Madri, onde esteve com autoridades espanholas. Foram seus dados que, segundo fontes, completaram a rota do dinheiro. Sua análise é de que, além de Suíça, Andorra e Espanha, o caminho incluía Emirados Árabes e República Dominicana. 

Estima-se que pelo menos 37 contas foram abertas em nome de empresas de fachada, todas no Panamá. Os pagamentos ocorreram entre 2007 e 2012 e envolveram uma dezena de pessoas e laranjas. Em grande parte, os subornos eram pagos por empresas estrangeiras que buscavam contratos com a PDVSA. Para camuflar os pagamentos, a rota do dinheiro incluía paraísos fiscais e bancos suíços. 

Segundo documentos, um dos cabeças do esquema foi o ex-vice-ministro de Energia Nervis Villalobos, responsável por elaborar a estratégia de fornecimento de energia no país. Membro do governo entre 2004 e 2006, detido na Espanha em outubro, ele aguarda extradição para os EUA. 

Os documentos revelam que Villalobos abriu 12 contas que receberam US$ 146 milhões. Ele alegou ser um engenheiro de sucesso, que seu patrimônio de US$ 82,6 milhões vinha de honorários de serviços de intermediação. Além de Andorra, ele também tinha contas na Suíça. 

Outro ex-ministro é Javier Alvarado, que também comandou a Corporación Eléctrica Nacional (Corpoelec), empresa suspeita de corrupção nos EUA. Em cinco contas, ele recebeu US$ 55 milhões, mesmo enquanto estava no governo de Chávez. Além de Andorra, ele também mantinha seu dinheiro na Suíça.

O ex-presidente da PDVSA Rafael Ramírez, que comandou a estatal por 12 anos, também é foco da investigação. O executivo saiu do posto apenas após ganhar imunidade como embaixador da Venezuela na ONU, já no governo de Nicolás Maduro. O dinheiro poderia estar na conta de seu primo Diego Salazar, com sete contas em nome de seis empresas diferentes em Andorra. Sozinho, ele movimentou US$ 25 milhões e foi preso semana passada. Na Venezuela, ambos também são alvo de investigações.

Foi justamente uma transferência suspeita para uma de suas contas, de 89 mil euros, que levou a França a soar o alerta para Andorra. Em 2012, houve outra transação suspeita. Salazar tentou enviar US$ 47 milhões da Suíça para a França, na suposta compra de uma propriedade. A rede é completada por Omar Farias, um empresário ligado ao chavismo que teria recebido US$ 692 milhões em Andorra. 

O esquema usado pelos intermediários era quase sempre o mesmo. Para justificar ao banco os pagamentos, alegavam que eram comissões por trabalhos de consultoria. De acordo com as investigações, esses trabalhos jamais foram realizados. 

Segundo o jornal espanhol, a juíza de Andorra, Canòlic Mingorance, suspeita que os chavistas cobravam entre 10% e 15% do total dos contratos com empresas estrangeiras. Uma parte desses pagamentos pode ter vindo da China que, ao longo dos anos, reforçou sua presença com contratos com a PDVSA. 

O banco utilizado para receber os pagamentos era o BPA, de Andorra, o mesmo que foi considerado instrumento para a lavagem de dinheiro de grupos criminosos russos e acabou sofrendo uma intervenção. De acordo com Andorra, parte do dinheiro que passou pelo principado saiu antes que fosse bloqueado, em 2015. Na Suíça, o Estado apurou que pelo menos US$ 118 milhões em nome de venezuelanos estariam bloqueados após suspeita de corrupção.

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